Olho a casa que me viu crescer e volto no tempo de uma forma
sôfrega como se vivesse os últimos momentos na terra. Apesar de estar
travestida de sobrado mal acabado, a casa, com suas paredes alaranjadas e
janelas brancas, surge voluptuosa como fêmea no cio. Mesmo sem querer eu vou
lembrar de seus aposentos estreitos e simplórios que, vez por outra, me encaram
e me reconhecem. Sou uma ilustre visitante que motivada pela saudade ou na
tentativa de buscar o que ficou perdido no passado, retorna cheia de esperança.
Despojada do presente, quero sentir a alquimia que ficou impregnada nos
corredores confusos e cobertos de lembranças boas. A parreira que foi plantada
pelo nono Bepe, em cuja sombra meu pai descansava sentado em uma espreguiçadeira
de lona listrada sempre que retornava do trabalho. O quintal de chão batido com
algumas árvores de copas altas que, nos outonos acabrunhados, espalhavam folhas
amarelas pelo chão. Durante as ventanias de setembro, seus galhos roçavam as
telhas da casa e rugiam como leões furiosos. Mais uma vez abandono-me aos
pensamentos e vejo o pé de laranja natal, miúdo, sorridente e de cheiros
vários. Retomo os momentos em que, nas tardes vadias, apanhava seus frutos com
cuidados de amante extremosa e saboreava o caldo adocicado. Na beirada da
cerca, um imponente pessegueiro com frutos comumente bichados que eventualmente
fazia meu deleite ao mostrar-me um pêssego maduro. Volto para a porta da
cozinha minúscula e ouço o gemido de um martelo batendo nas madeiras verdes.
Mais uma vez meu avô entra em cena, com sua sabedoria de imigrante italiano e
pobre, na construção do galpão que iria abrigar dezenas de galinhas poedeiras.
Surge então a imagem de minhas irmãs e eu, no final do dia, recolhendo ovos com
cestas de vime. Minha memória teima em trazer de volta o dia em que minha mãe
vendeu duas de suas poedeiras para que nós pudéssemos ir na matinê de domingo. As
mães são generosas no seu amor. Volto para o cômodo da frente e dali visualizo
a cerca coberta de rosinhas de maio que floresciam em novembro. Plantadas a
esmo e sem cuidado algum, pariam cachopas cor-de-rosa que se amontoavam
singelas e perfumadas provocando um espetáculo quase divino. Difícil era
apanhá-las sem espetar os dedos nos seus espinhos endurecidos e afiados.
Girando ainda a manivela da memória vejo Dona Geni, não a que foi apedrejada,
mas a que plantava sempre- vivas em um jardim atulhado de borboletas. A mulher
das flores, ela era chamada pela vizinhança. Como esse tempo foi intenso. As palavras
tornam-se xucras para traduzi-lo. As
emoções que ali nasceram me espreitam e me seduzem todos os dias. Impossível
esquecê-las. Saí daquele lugar para alçar voos aventureiros, mas lá minhas
plumas deixei. Com o pensamento meio anarquizado saio daquele estado de
contemplação com o som de uma voz feminina perguntando se eu procurava por
alguém.
sábado, 22 de outubro de 2016
domingo, 3 de julho de 2016
O FUTEBOL NOSSO DE CADA DIA
O domingo tinha todos os requisitos para ser perfeito. O dia
de domingo é gostoso por natureza, e este, em especial, apareceu
escandalosamente ensolarado. O frio de
renguear cusco deu lugar a um veranico que antes era chamado de verão de maio.
Clima de férias no Nordeste. Um
pouco antes do almoço, teríamos o Grenal. Quem é gaúcho sabe que o Rio Grande é
dividido entre gremistas e colorados. Tem os que não gostam de jogo, mas torcer
por um time de fora, somente os gaúchos desgarrados, os que não têm calor na
alma. Em dia de Grenal, o estado inteirinho fica inquieto, tenso e esperançoso.
Uma disputa gigantesca aflora nos nossos corações. A vitória num jogo desses
tem gosto de sorvete de morando, de pudim de chocolate, de doce de leite.
Hoje, o meu Internacional fez eu acordar antes do almoço
(nos domingos, acorda-se depois do almoço), eufórica, vibrante e faceira. O
Beira-Rio estava esplêndido. Uma massa humana cor de sangue vibrava nas
arquibancadas. Gente de todas as cores, todas as idades, todos os sexos torcia,
gritava, agitava bandeiras.
Meu time perdeu. Contingências do futebol. Eu chorei. A
maior torcida gaúcha chorou. Não é possível explicar o que sentimos. Têm fatos
que a palavra não alcança, mas dói feito uma brasa. As grandes dores são mudas.
Apesar dessa derrota, continuo acreditando com cada molécula do meu corpo que
ainda vamos nos empanturrar de vitórias.
De repente, o domingo ficou cinzento. Mais parecia uma
segunda- feira chuvosa.
Ângela Maria Lorenzoni Sauthier- 03/07/2016
domingo, 3 de abril de 2016
SIMPLES ASSIM
Por força do ofício, eu transito por entre adolescentes e
jovens diariamente. Compartilhamos manhãs, tardes ou noites inteiras
num entrosamento às vezes bonito, outras vezes nem tanto, mas sempre melhor do que
era há algum tempo em que não tínhamos com eles intimidade alguma. Havia um
afastamento respeitoso e formal que, de alguma maneira, os deixava subjugados a
nós e a espontaneidade de suas atitudes ficava mascarada em função da
necessidade de corresponderem ao que esperávamos deles. Hoje, apesar de tudo o
que se comenta sobre a ausência de limites ou sobre a relutância no cumprimento
de regras estabelecidas, eu considero a convivência com os jovens bem mais
emocionante e positiva. Os meninos e meninas mudaram muito. Gosto mais deles
agora. São espontâneos, sinceros, menos preconceituosos, salvo algum perdido
que ainda carrega consigo um ranço do conservadorismo. Os corredores das
escolas estão repletos de loiros encaracolados, morenas de cabelo liso-
Cleópatra, camisetas coloridas, meninos com rabo de cavalo amarrado com fita
rosa-choque, meninas com cabelos raspados. São verdadeiros. Tanto que sem
nenhum pudor desfilam com sua cara-metade de mãos dadas, mesmo que pertençam ao
mesmo sexo. Admiro essa ousadia, essa coragem de quebrar paradigmas. São bem
resolvidos, bem articulados e ao mesmo tempo, vulneráveis como o voo de uma
borboleta. São pragmáticos e não hesitam em demonstrar seus sentimentos através
de uma carícia no cabelo, na mão, no rosto. Saboreio essa mentirosa rebeldia
que os acompanha e respeito essas ligações que o adestramento social considera
transgressoras. Sexos opostos continuam se atraindo, porém cada vez mais
observo meninas ficando com outras meninas numa relação doce e afetuosa sem
parecer que estão carregando o peso do mundo sobre seus ombros. Cada vez mais vejo homens dividindo uma mesa
de bar e também trocando olhares de quem quer apanhar a fruta madura da árvore.
Atualmente a linha que separa os anseios de homens e de mulheres está ficando
invisível. Nossos jovens não aceitam mais ter que reprimir aspectos de suas
personalidades para agradar a uma sociedade excludente por natureza. E a
autenticidade deles me comove e faz com que eu passe a refletir em relação a
alguns conceitos que eu tinha como verdadeiros. Assim, como a florada dos ipês
anunciam a primavera, essa realidade está anunciando que muito em breve as
pessoas poderão vir a escolher seus parceiros pelo cheiro, pela troca de palavras doces, pelo olhar arrebatador, pelo acolhimento de suas almas. A distinção entre macho e fêmea cairá por terra.
Os mais conservadores, aqueles que têm sempre razão, enfim, o soldado do passo
certo tem que aprender a amenizar esse olhar de estrangeiro que lhe persegue.
Sem julgamentos. E, com a contribuição de Eclesiastes 3 “Todos vão para um
lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão” reconheço que é simples assim,
pois é coisa de Deus. Um dia desses, durante uma aula de literatura, mostrei a
eles um exemplo de texto pequeno no tamanho, mas forte no sentido e que reforça o contexto
atual: Amem. Amém.
Ângela Maria Lorenzoni Sauthier- Abril/2016
quinta-feira, 10 de março de 2016
EDUCAR É PRECISO
Estava subindo a Venâncio Aires numa dessas tardes quentes
de fevereiro, quando percebi que o tempo mudou de repente. O céu antes
escandalosamente ensolarado deu lugar a nuvens negras que se movimentavam com
rapidez. Um grande temporal se armava na
minha Santa Maria. As pessoas ficam agitadas quando isso acontece. Na minha frente, seguiam apressadas mãe e
filha de mãos dadas. A menina que deveria ter uns 5 ou 6 anos, chorava porque
queria um sorvete. Não sei exatamente qual o combinado entre elas antes, mas
certamente o temporal que se insinuava alterou os planos da mãe. A menina não
aceitava e queria porque queria o tal do sorvete. A mãe então argumentou que a
chuva estava próxima e elas teriam que correr até a parada para não perderem o
ônibus. De nada adiantou a explicação. O choro da filha, a princípio manso, foi
aumentando até se transformar numa súplica birrenta e medonha. Segui observando
a cena para ver o desfecho. A menina, com toda a tirania peculiar de criança
sem limites continuava testando a mãe, que, como todas, carregava aquele pesado
sentimento de culpa por ver um filho contrariado. Junta-se a isso a vergonha
que estava sentindo por ser personagem de um espetáculo que já chamava a
atenção das pessoas que por ali passavam. Foi então que a mãe iniciou o processo
mais rápido de perda de autoridade materna: negociou com a menina:
- De noite eu faço batata frita pra ti, prometeu a mãe.
- E massinha também, determinou a filha.
- Massinha também, concordou a mãe.
A pequena ditadora enxugou as lágrima, ergueu o rostinho
brejeiro e ambas subiram no ônibus. Acompanhei com o olhar abstraído o coletivo
que dobrou na Avenida Rio Branco. Fiquei pensando cá com meus botões: que
oportunidade essa mãe perdeu de ensinar limites a uma criança. Educar é
trabalhoso, exige paciência, firmeza, equilíbrio. E as mães têm dificuldade de
dizer não, pois o não é sempre uma frustração de um desejo. No entanto, são
justamente essas pequenas frustrações que vão formando o caráter de uma
criança. Na cena que eu assisti, aquela mãe achou mais confortável ser
conivente com a manipulação da filha e colocar um ponto final no problema. Os
padrões comportamentais familiares sofrem uma grande desorganização. Está se formando uma geração de príncipes e
princesas com mais direitos e liberdades do que obrigações e responsabilidades.
A vida aqui fora nos obriga a respeitar limites e as crianças precisam estar
preparadas para isso. Melhor seria que elas aprendessem no ambiente familiar e que
os pais não delegassem à escola e a seus professores esses ensinamentos. Segui
meu caminho torcendo para que a chuva esperasse eu chegar em casa.
Ângela Lorenzoni Sauthier
Março/2016
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
O PODER DO SALTO
Sou deslumbrada por saltos altos desde pequena. Não é à toa. Nasci em
uma noite de carnaval, quando beldades com suas fantasias faustosas desfilavam
na avenida. E toda aquela pomposidade lá instalada clamava por saltos generosos.
Não consigo imaginar uma rainha de bateria usando rasteirinha. Seria muito
aborrecido. Também não acredito que Cinderela fisgou o seu príncipe encantado
pela cor de seus olhos. Foi o sapatinho de cristal salto 15 que fez o príncipe bater
de porta em porta a procura da dona. Homens e mulheres usam saltos desde há
muito tempo. Reza a lenda que na Idade Média os sapatos com solado de madeira tinham
a finalidade de afastar os pés da sujeira das ruas. Os açougueiros do antigo
Egito usavam saltos para se protegerem do sangue dos animais. Até então, esse
tipo de calçado não era visto como fetiche, mas sim como necessidade. Com o
teatro grego e romano, o salto começou a indicar status social. Os atores
calçavam sandálias de plataforma, e quanto mais alta, mais importante era o
personagem. Lindo de se ver eram as cortesãs chinesas com seus tamancos de 30
cm de altura provocando nos homens os mais inconfessos desejos. Uma lei promulgada
pelo parlamento inglês do século XV decretava: “Toda mulher que seduzir um
homem para que ele se case com ela utilizando-se de sapatos de salto alto, será
castigada com as penas de bruxaria”. Quem prefere calçados baixos que me
perdoe, mas o imaginário social possui uma estreita relação de sedução com o
salto alto. Haja vista a expressão “sobe no salto, amiga” quando uma mulher
precisa mostrar atitude. Há milênios, o salto faz a cabeça e os pés de muitas
mulheres e de homens também. Freud, conhecedor da alma humana, afirmou que as
mulheres não imaginam o poder de sedução e controle que o salto provoca nos
homens. Embora considerado para muitos como um desperdício burguês, esse
artifício carrega o nosso estado de espírito e transforma o visual, valorizando
até um jeans surrado. Considero-o uma peça indispensável, para não dizer a mais
importante do guarda-roupa de toda mulher. Podemos até não usá-los todos os
dias, mas sempre que quisermos marcar presença em algum acontecimento, lançamos
mão do que se tornou o ícone do imaginário feminino, um bom salto alto.
Ângela Maria Lorenzoni Sauthier – Fevereiro/2016
sábado, 9 de janeiro de 2016
DEGUSTANDO A VIDA
Marx afirma que a luta de classes
é o que anima a humanidade. Freud acha que é o sexo. Para mim, perdoem-me a
pretensão, o que nos impulsiona é o sonho. Não me refiro àquela fantasia que
acontece durante o sono que a psicanálise define como cargas emocionais
armazenadas no inconsciente. Falo do sonho como desejo, ânsia, aspiração,
objetivo. Ele não precisa ser imenso, mas intenso como as enxurradas que surgem
abruptas em céus cor de chumbo. Sonhos
são vontades que nos incitam, que nos fazem sair da cama pela manhã, que nos
mostram o rumo a seguir. Na infância, eles se misturam à imaginação açucarada e
prazerosa envoltos aos hormônios que estão sendo produzidos. De fácil acesso,
surgem e somem sem deixar rastro. Quando não realizados, são substituídos por
outros, sem problemas. Um cãozinho de
estimação, uma bicicleta nova, o celular da moda e, com o tempo, dependendo das
posses, vão se sofisticando cada vez mais. Fase folgada essa, pois nada depende
da gente. Temos que simplesmente desejar. Se ganharmos, estaremos no lucro E
assim vamos borboleteando até a barulhenta juventude que surge derramando
planos e experiências sôfregas. Época de
despertar paixões, convulsionar, mas também de traçar caminhos, investir no
futuro. Nessa ocasião, juramos de punhos cerrados que seremos felizes para
sempre com o parceiro que escolheremos, que nossos filhos serão lindos e bem
educados, e a fama esmagadora virá ao nosso encontro. Lá na frente, oscilando
entre severa e exuberante, surge a maturidade. Às vezes sorridente, às vezes
desapontada. Deveria ser o tempo de fazer boas colheitas, de realização
profissional. Mas ainda temos prazo para refazer aquilo que não saiu a
contento, lavar as mágoas que teimam em permanecer em nosso coração, seguir lutando
para sermos úteis e justos, e quem sabe, admirar nossas conquistas. E depois? O
que vai nos restar? Podemos continuar sonhando na velhice? Um dia desses, questionei
meu amigo e colega Jâneo sobre a necessidade de sonhar. Jâneo é um jovem
professor de filosofia, estudante de artes cênicas e mestrando em educação. É
inteligente, criativo, dinâmico e dono de uma criticidade oceânica.
Perguntei-lhe o que nos move na velhice. As lembranças, prontamente ele falou.
Diante daquela resposta assustadora, me senti paralisada. Revisitar o passado
nos dá energia suficiente para viver o presente? Seria assim o último ciclo de
nossas vidas? Viver de recordações? É o mesmo que esperar por nada e admitir
que o tempo passou de vez. E essa coisa cheia de vida e alegria que pulsa
dentro da gente sai de cena? Seria desolador. Sim, isso é morrer. Quero crer
que a velhice é a fase em que armazenamos conhecimentos, experiências, amores
bem e mal resolvidos, amizades verdadeiras e acima de tudo vontades. Vontade de
fazer exatamente aquilo que por várias razões não pôde ser feito antes. Na
metamorfose dos anos, temos que encontrar razões para continuar vivendo. Se o
comportamento humano é modelado pela cultura, e a expectativa de vida do homem
aumentou, quero ser desafiada sempre, mesmo na senilidade. Desculpe, meu amigo Jâneo. Preciso violar a
tua tese. É uma questão de vida ou morte.
Ângela Maria Lorenzoni
Sauthier
07/01/2016
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
PRESENTES DE NATAL
Chegou o Natal. É hora de escolher presentes. Jurei que não
vou mais embarcar nas loucuras de final de ano. Correr agoniada da manhã à
noite nos dias 22, 23 e 24. Comprar presentes para os filhos, para o marido,
para os afilhados, para o amigo secreto, para a faxineira, para a melhor amiga,
para a vizinha de porta, para a manicure...
Providenciar o peru, a sobremesa, a farofa, o arroz à grega, o salpicão,
as frutas... e quando faltar trinta minutos para servir a mesa, ir para o
banho, passar um pente no cabelo e sentar no sofá quase dormindo de tão
cansada. Não quero me sentir obrigada a ficar feliz e sorridente na hora da
ceia. Quero ser absolvida por não ter tido paciência de colocar as luzes na
sacada, nem montado um pinheiro imponente.
A maturidade está me deixando mais exigente com algumas coisas e mais
comedida com outras. Decidi não fazer aqueles tradicionais pedidos ao
Papai-Noel. Dane-se o Iphone 6s plus na cor ouro rosa com 128GB, as peças de
cerâmica pintadas a mão de Istambul, a viagem a Bora Bora para nadar nas águas
azul-turquesa. Quero presentes mais deleitosos, como ser menos consumista, por
exemplo. Serenidade é outro bom presente. Serenidade suficiente para resolver
meus problemas sem ter que achar culpados. É difícil viver num mundo em que a
tragédia e o banal aparecem juntos, mas pessoas serenas entendem melhor essas
discrepâncias. Quando eu era adolescente, nos momentos em que meu pai me
repreendia por algum motivo, eu rebatia suas acusações até deixá-lo tonto.
Então ele dizia que eu seria uma ótima advogada. Hoje quero ter equilíbrio para
entender que não sou dona da verdade e aceitar a opinião alheia com ponderação.
Se tem algo que me aborrece é a minha
teimosia. Desejo que as críticas destruidoras passem longe de mim para não
sacolejarem minhas emoções. Aprender a me perdoar também quero. Acredito que
seja a melhor maneira de arrancar as raízes da dor de dentro da gente. Se não
for pedir demais, gostaria de ser mais humilde e nunca, mas nunca mesmo, deixar
a vaidade se aproximar muito. A vaidade é o pecado preferido do diabo. Quero
pensar menos. Pensar é coisa muito perigosa e às vezes nos obriga a tomar
decisões que não queremos. Também
gostaria de viver uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. O que resta de
mim é uma mulher barulhenta que não sabe se comportar, fala o que pensa e paga
um alto preço por isso. Falar o que se
pensa nos abre algumas portas e fecha outras. Sou uma mulher com bom gosto, bom
senso, que não gosta de dias nublados e ama desafios. Que aplaude algumas
rebeldias, mas detesta conchavos de qualquer espécie. Eu já disse, estou
ficando meio chata. No momento, procuro a simplicidades das coisas, a essência
das pessoas e fujo de olhares que vigiam, punem e criticam. A curiosidade? Ah, essa está sempre pulsando
dentro de mim.
Ângela Sauthier
Dezembro/2015
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