terça-feira, 5 de março de 2019

ANTES DE PARTIR (Parte 1)

     Aquele ano não começara bem para ele. As espaçadas indisposições que surgiram antes do Natal tornaram-se frequentes dores abdominais em Março. Consultas médicas, exames de sangue e de imagens, corridas a especialistas, choro contido e o diagnóstico mortal.
     Agora, da janela do quarto do hospital, observo o galho da árvore balançando ao vento. O silêncio da noite me reporta ao longo ano de quimioterapias. Apesar do prognóstico, a morte não estava em seus planos. Tinha convicção de que ainda teria uma vida longa. Por generosidade me esforcei para acreditar nisso também. Construí um mundo de faz de contas para que o desalento  não o atingisse.
É aterrorizante saber que a morte ronda nossa casa. Isso fez com que eu me embrulhasse em tantas coisas e depois não soubesse sair dos embrulhos. Estranho estar ali naquela hora ouvindo o ruído do vento e temendo que o pior acontecesse. Estranho não termos nenhum  controle sobre a vida.
     Nas brincadeiras das horas bobas, ele dizia que quando "subisse" queria alegrias em sua volta. Olho agora seu rosto sonolento  revestido de dor e as batidas do meu coração ficam  mais fortes Vejo de relance a cara desgrenhada do vento e as batidas do meu peito se aceleram. Finalmente amanhece. Cheiro de café passado. O movimento das enfermeiras no corredor do hospital recomeça. Mais uma noite de vida.

FEVEREIRO/2019
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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

VÁRIOS PESOS E MEDIDAS

Caminhava pela rua do Acampamento hoje à tarde, quando percebi um movimento esquisito na porta das lojas Grazziotin. Três policiais devidamente armados cercavam um rapaz "negro" que tinha nas mãos uma  sacola insignificante. Um dos policiais comunicava-se pelo rádio, não sei exatamente em que tom. Os outros dois falavam, gesticulavam e movimentavam-se pungentemente enquanto o rapaz esperava com uma aragem de tristeza resignada no olhar. Possivelmente ele teria cometido um pequeno furto na loja. Uma camiseta, uma bermuda ou uma cueca. Vamos lá saber de que ele mais necessitava! Como a curiosidade mobiliza multidões, aos poucos  pessoas amontoavam-se para ver o rosto do “gatuno” e presenciar o desfecho do caso. Eu, do outro lado da rua, pensei no Brasil consumido pela chama da corrupção, da ladroeira e da patifaria, e senti náuseas. Salve Cunha, Palloci, Delcídio do Amaral, Sérgio Cabral... Pobre rapaz!

Ângela Sauthier/ Dezembro-2017

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

A secretária que me atendeu tinha um sorriso bonito e delicadeza no trato. Pediu-me a carteira do convênio, prova viva de que no fim do mês seu salário estaria garantido. Gentilmente me conduziu à sala ao lado. Alguns minutos depois, outra funcionária me acompanhou até o segundo piso para que lá eu aguardasse ser chamada pelo nome.  Feito isso, uma terceira atendente, dessa vez com cara de poucos amigos, me chamou pelo nome e me levou até um aposento minúscula. Me deu algumas instruções: tirar a blusa, vestir o jaleco, deitar na maca e aguardar o médico.  Assim se comporta a maioria dos funcionários de clínicas médicas. Com pragmatismo, eficiência e indiferença. É o frio protocolo.  Me senti tensa e manuseada como troco de ônibus.  Em minha solene solidão, passei a observar o gélido ambiente que me acolhia. Dois monitores piscavam e indicavam alguns dados estranhos. Um aparelho gigantesco, cheio de botões e teclas emitia um som misterioso, de pouco intensidade, mas contínuo. Com a penumbra do ambiente, aquelas luzes mortiças passaram a me assombrar. Algumas seringas sobre a mesinha compunham a cena dignamente. E eu ali, olhando para o nada, cheia de medos, sentindo-me invisível. O que pode ser mais assustador do que o desconhecido? Dentro de minutos estaria expondo minhas mazelas físicas para um homem estranho vestido de branco. Quis bater em retirada. Me contive. Tranquei o choro. Naquele emaranhado de emoções, comecei a costurar lembranças dolorosas sobre a doença que vitimou minha mãe. Tudo ali fazia eu voltar no tempo.  Pensei nas longos dias que ela e eu perambulamos juntas na solidão desses lugares com a esperança de que os homens de branco encontrassem fiapos de esperança para aquele corpo sofrido. - Um minuto de silêncio para aqueles que lutam por restos de vida -. Já odiei esses profetas anônimos que antecipam a ideia de morte por conta de seus saberes. Então comecei a me embrulhar nesses pensamentos e não sabia como sair desses embrulhos. As batidas no meu peito se aceleraram. Por maior que seja a pena, não haverá castigo mais duro do que ver a vida de quem amamos esvair-se. E os que partem esquecem o caminha de volta. Embora a vida nos ensine a administrar nossa dor, a consciência nos torna covardes. E quem fica se mantem na eterna luta de prolongar sua existência peregrinando por consultórios na tentativa de antecipar-se às doenças. E lá estava eu farejando as minhas. Despertei daquela letargia que fazia fronteira entre a realidade e a imaginação com a voz do radiologista dizendo que o exame havia terminado e que eu poderia me vestir. Olhei para ele com respeito porque conhecimento exige respeito. É grave doutor?

Ângela Maria Lorenzoni Sauthier
Janeiro/2017


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

DIALOGANDO COM O TERAPEUTA




Lhe digo, não sou eu que atraio minhas tristezas. Fujo delas como o diabo da cruz. No entanto o desalento me absorveu. Sinto como se estivesse carregando o fardo do mundo. Sempre que batia asas, olhava para trás na espera de que alguém viesse a meu encalço. Agora me perco na escuridão dos dias sem sentir medo. Meu coração não oscila mais segundo as estações do ano. Está ficando cheio de nada. Bate devagar. Logo eu que sempre apostei nas emoções. Aquelas extraordinárias, porque as moderadas são cheias de tédio. Logo eu que sempre tive um formidável apetite de viver.  Não me reconheço mais. Dou um salto mortal na memória e percebo que na minha meninice não existiam dias iguais. Luminosos, nublados ou chuvosos vinham sempre abarrotados de utopias. Na adolescência ainda se espera muito da vida. Lampejos de sonhos nos perseguem. Eles moram dentro da gente. O senhor que conhece os labirintos do coração sabe que é preciso ter cuidado com o que se busca, pois nada é para sempre. Hoje o mundo parece estar desvestido de alegrias. Essa vida louca que me faz tombar aos pedaços quando percebo que fui expulsa da minha própria condição para dar lugar ao momento presente que me castiga com rigidez. Olho para os lados e só vejo gente triste. Deve ser por culpa do tempo, esse intruso que escorre como óleo espesso e faz crescer a nossa rotina.
O doutor sabe que a vida é uma sucessão de perdas e eu não quero viver recolhida no vazio da minha existência, no silêncio protocolar dos dias opacos, nem faminta de afetos. Preciso acreditar que não perdi a razão para seguir com a minha história. O senhor tem sido meu melhor conselheiro nas horas em que minha alma sapateia desolada. Por isso faça eu aceitar a condição de não ter nascido para moldar almas.
  Olho para a janela e espero que, como uma doença, a noite passe logo. Vou sair do escuro sem fazer barulho, na ponta dos pés. Vou encontrar o dia. Vou encontrar o sol. Eu preciso de sol para viver. O que eu queria mesmo, doutor, era uma transfusão de vida.

Ângela M. L. Sauthier
Janeiro/2017



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

MEU PRÍNCIPE ESTÁ DE ANIVERSÁRIO


Conheço os limites das palavras, por isso sempre foi difícil para mim traduzir as emoções.  Não sei medir sentimentos. Menos ainda avaliar a intensidade dos afetos de uma mãe por um filho. Somente quem os tem sabe que esse amor desvairado constrói ligações definitivas. Hoje meu filho Camilo está de aniversário, por isso é um dia importante. O dia é especial porque Camilo é um ser humano extraordinário. Ele nasceu de parto normal às 20 horas e 15 minutos com um quilo e oitocentos gramas. Tinha apenas 45 centímetros. Pouco maior que um gatinho, Camilo chegou ao mundo cauteloso e frágil sem fazer estardalhaço. Somente o pediatra percebeu que aquele ser minúsculo e apressado faria uma revolução em nossas vidas. Pessoas intensas chegam rápido.
A princípio pensei que a vida tivesse me dado uma rasteira. Mas foi por um curto período. Logo rasguei o manual de instruções e partimos do zero. Vivendo em uma sociedade que trata o especial como doente, lutei para abrigá-lo de ventos ásperos. Enfrentei bichos e homens, mas nunca deixei que as aves de mau agouro pousassem em seu ombro.  Fomos nos conhecendo um pouco a cada dia. Ensinei seus primeiros passos, a balbuciar as primeiras sílabas, a sentir o doce e o amargo, a distinguir a luz da penumbra. E ele, com abertura enorme para o afeto e com escassas palavras me ensinou que a humildade é uma bênção, que a tolerância nos faz evoluir, que o amor ilumina a alma e que a felicidade está nas coisas pequenas e simples. Camilo vai à luta sem medo. Conquista seus espaços com humildade. Enfrenta os desafios sem arrogância.
Seu carisma conquista a todos sem restrição, e eu sinto um grande orgulho dele. Agradeço a Deus todos os dias por tê-lo a meu lado. Parabéns, meu príncipe!


sábado, 22 de outubro de 2016

MEMÓRIAS

Olho a casa que me viu crescer e volto no tempo de uma forma sôfrega como se vivesse os últimos momentos na terra. Apesar de estar travestida de sobrado mal acabado, a casa, com suas paredes alaranjadas e janelas brancas, surge voluptuosa como fêmea no cio. Mesmo sem querer eu vou lembrar de seus aposentos estreitos e simplórios que, vez por outra, me encaram e me reconhecem. Sou uma ilustre visitante que motivada pela saudade ou na tentativa de buscar o que ficou perdido no passado, retorna cheia de esperança. Despojada do presente, quero sentir a alquimia que ficou impregnada nos corredores confusos e cobertos de lembranças boas. A parreira que foi plantada pelo nono Bepe, em cuja sombra meu pai descansava sentado em uma espreguiçadeira de lona listrada sempre que retornava do trabalho. O quintal de chão batido com algumas árvores de copas altas que, nos outonos acabrunhados, espalhavam folhas amarelas pelo chão. Durante as ventanias de setembro, seus galhos roçavam as telhas da casa e rugiam como leões furiosos. Mais uma vez abandono-me aos pensamentos e vejo o pé de laranja natal, miúdo, sorridente e de cheiros vários. Retomo os momentos em que, nas tardes vadias, apanhava seus frutos com cuidados de amante extremosa e saboreava o caldo adocicado. Na beirada da cerca, um imponente pessegueiro com frutos comumente bichados que eventualmente fazia meu deleite ao mostrar-me um pêssego maduro. Volto para a porta da cozinha minúscula e ouço o gemido de um martelo batendo nas madeiras verdes. Mais uma vez meu avô entra em cena, com sua sabedoria de imigrante italiano e pobre, na construção do galpão que iria abrigar dezenas de galinhas poedeiras. Surge então a imagem de minhas irmãs e eu, no final do dia, recolhendo ovos com cestas de vime. Minha memória teima em trazer de volta o dia em que minha mãe vendeu duas de suas poedeiras para que nós pudéssemos ir na matinê de domingo. As mães são generosas no seu amor. Volto para o cômodo da frente e dali visualizo a cerca coberta de rosinhas de maio que floresciam em novembro. Plantadas a esmo e sem cuidado algum, pariam cachopas cor-de-rosa que se amontoavam singelas e perfumadas provocando um espetáculo quase divino. Difícil era apanhá-las sem espetar os dedos nos seus espinhos endurecidos e afiados. Girando ainda a manivela da memória vejo Dona Geni, não a que foi apedrejada, mas a que plantava sempre- vivas em um jardim atulhado de borboletas. A mulher das flores, ela era chamada pela vizinhança.  Como esse tempo foi intenso. As palavras tornam-se xucras para traduzi-lo.  As emoções que ali nasceram me espreitam e me seduzem todos os dias. Impossível esquecê-las. Saí daquele lugar para alçar voos aventureiros, mas lá minhas plumas deixei. Com o pensamento meio anarquizado saio daquele estado de contemplação com o som de uma voz feminina perguntando se eu procurava por alguém.

 Ângela Sauthier-  Outubro/2016





domingo, 3 de julho de 2016

O FUTEBOL NOSSO DE CADA DIA


O domingo tinha todos os requisitos para ser perfeito. O dia de domingo é gostoso por natureza, e este, em especial, apareceu escandalosamente ensolarado.  O frio de renguear cusco deu lugar a um veranico que antes era chamado de verão de maio. Clima de férias no Nordeste.    Um pouco antes do almoço, teríamos o Grenal. Quem é gaúcho sabe que o Rio Grande é dividido entre gremistas e colorados. Tem os que não gostam de jogo, mas torcer por um time de fora, somente os gaúchos desgarrados, os que não têm calor na alma. Em dia de Grenal, o estado inteirinho fica inquieto, tenso e esperançoso. Uma disputa gigantesca aflora nos nossos corações. A vitória num jogo desses tem gosto de sorvete de morando, de pudim de chocolate, de doce de leite.
Hoje, o meu Internacional fez eu acordar antes do almoço (nos domingos, acorda-se depois do almoço), eufórica, vibrante e faceira. O Beira-Rio estava esplêndido. Uma massa humana cor de sangue vibrava nas arquibancadas. Gente de todas as cores, todas as idades, todos os sexos torcia, gritava, agitava bandeiras.
Meu time perdeu. Contingências do futebol. Eu chorei. A maior torcida gaúcha chorou. Não é possível explicar o que sentimos. Têm fatos que a palavra não alcança, mas dói feito uma brasa. As grandes dores são mudas. Apesar dessa derrota, continuo acreditando com cada molécula do meu corpo que ainda vamos nos empanturrar de vitórias.
De repente, o domingo ficou cinzento. Mais parecia uma segunda- feira chuvosa.

Ângela Maria Lorenzoni Sauthier- 03/07/2016



domingo, 3 de abril de 2016

SIMPLES ASSIM

Por força do ofício, eu transito por entre adolescentes e jovens diariamente.   Compartilhamos manhãs, tardes ou noites inteiras num entrosamento às vezes bonito, outras vezes nem tanto, mas sempre melhor do que era há algum tempo em que não tínhamos com eles intimidade alguma. Havia um afastamento respeitoso e formal que, de alguma maneira, os deixava subjugados a nós e a espontaneidade de suas atitudes ficava mascarada em função da necessidade de corresponderem ao que esperávamos deles. Hoje, apesar de tudo o que se comenta sobre a ausência de limites ou sobre a relutância no cumprimento de regras estabelecidas, eu considero a convivência com os jovens bem mais emocionante e positiva. Os meninos e meninas mudaram muito. Gosto mais deles agora. São espontâneos, sinceros, menos preconceituosos, salvo algum perdido que ainda carrega consigo um ranço do conservadorismo. Os corredores das escolas estão repletos de loiros encaracolados, morenas de cabelo liso- Cleópatra, camisetas coloridas, meninos com rabo de cavalo amarrado com fita rosa-choque, meninas com cabelos raspados. São verdadeiros. Tanto que sem nenhum pudor desfilam com sua cara-metade de mãos dadas, mesmo que pertençam ao mesmo sexo. Admiro essa ousadia, essa coragem de quebrar paradigmas. São bem resolvidos, bem articulados e ao mesmo tempo, vulneráveis como o voo de uma borboleta. São pragmáticos e não hesitam em demonstrar seus sentimentos através de uma carícia no cabelo, na mão, no rosto. Saboreio essa mentirosa rebeldia que os acompanha e respeito essas ligações que o adestramento social considera transgressoras. Sexos opostos continuam se atraindo, porém cada vez mais observo meninas ficando com outras meninas numa relação doce e afetuosa sem parecer que estão carregando o peso do mundo sobre seus ombros.  Cada vez mais vejo homens dividindo uma mesa de bar e também trocando olhares de quem quer apanhar a fruta madura da árvore. Atualmente a linha que separa os anseios de homens e de mulheres está ficando invisível. Nossos jovens não aceitam mais ter que reprimir aspectos de suas personalidades para agradar a uma sociedade excludente por natureza. E a autenticidade deles me comove e faz com que eu passe a refletir em relação a alguns conceitos que eu tinha como verdadeiros. Assim, como a florada dos ipês anunciam a primavera, essa realidade está anunciando que muito em breve as pessoas poderão vir a escolher seus parceiros pelo cheiro, pela troca de palavras doces, pelo olhar arrebatador, pelo acolhimento de suas almas. A distinção entre macho e fêmea cairá por terra. Os mais conservadores, aqueles que têm sempre razão, enfim, o soldado do passo certo tem que aprender a amenizar esse olhar de estrangeiro que lhe persegue. Sem julgamentos. E, com a contribuição de Eclesiastes 3 “Todos vão para um lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão” reconheço que é simples assim, pois é coisa de Deus. Um dia desses, durante uma aula de literatura, mostrei a eles um exemplo de texto pequeno no tamanho, mas forte no sentido e   que reforça o contexto atual: Amem. Amém.

Ângela Maria Lorenzoni Sauthier- Abril/2016




quinta-feira, 10 de março de 2016

EDUCAR É PRECISO

Estava subindo a Venâncio Aires numa dessas tardes quentes de fevereiro, quando percebi que o tempo mudou de repente. O céu antes escandalosamente ensolarado deu lugar a nuvens negras que se movimentavam com rapidez.  Um grande temporal se armava na minha Santa Maria. As pessoas ficam agitadas quando isso acontece.  Na minha frente, seguiam apressadas mãe e filha de mãos dadas. A menina que deveria ter uns 5 ou 6 anos, chorava porque queria um sorvete. Não sei exatamente qual o combinado entre elas antes, mas certamente o temporal que se insinuava alterou os planos da mãe. A menina não aceitava e queria porque queria o tal do sorvete. A mãe então argumentou que a chuva estava próxima e elas teriam que correr até a parada para não perderem o ônibus. De nada adiantou a explicação. O choro da filha, a princípio manso, foi aumentando até se transformar numa súplica birrenta e medonha. Segui observando a cena para ver o desfecho. A menina, com toda a tirania peculiar de criança sem limites continuava testando a mãe, que, como todas, carregava aquele pesado sentimento de culpa por ver um filho contrariado. Junta-se a isso a vergonha que estava sentindo por ser personagem de um espetáculo que já chamava a atenção das pessoas que por ali passavam. Foi então que a mãe iniciou o processo mais rápido de perda de autoridade materna: negociou com a menina:
- De noite eu faço batata frita pra ti, prometeu a mãe.
- E massinha também, determinou a filha.
- Massinha também, concordou a mãe.
A pequena ditadora enxugou as lágrima, ergueu o rostinho brejeiro e ambas subiram no ônibus. Acompanhei com o olhar abstraído o coletivo que dobrou na Avenida Rio Branco. Fiquei pensando cá com meus botões: que oportunidade essa mãe perdeu de ensinar limites a uma criança. Educar é trabalhoso, exige paciência, firmeza, equilíbrio. E as mães têm dificuldade de dizer não, pois o não é sempre uma frustração de um desejo. No entanto, são justamente essas pequenas frustrações que vão formando o caráter de uma criança. Na cena que eu assisti, aquela mãe achou mais confortável ser conivente com a manipulação da filha e colocar um ponto final no problema. Os padrões comportamentais familiares sofrem uma grande desorganização.  Está se formando uma geração de príncipes e princesas com mais direitos e liberdades do que obrigações e responsabilidades. A vida aqui fora nos obriga a respeitar limites e as crianças precisam estar preparadas para isso. Melhor seria que elas aprendessem no ambiente familiar e que os pais não delegassem à escola e a seus professores esses ensinamentos. Segui meu caminho torcendo para que a chuva esperasse eu chegar em casa.

Ângela Lorenzoni Sauthier

Março/2016

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O PODER DO SALTO

Sou deslumbrada por saltos altos desde pequena. Não é à toa. Nasci em uma noite de carnaval, quando beldades com suas fantasias faustosas desfilavam na avenida. E toda aquela pomposidade lá instalada clamava por saltos generosos. Não consigo imaginar uma rainha de bateria usando rasteirinha. Seria muito aborrecido. Também não acredito que Cinderela fisgou o seu príncipe encantado pela cor de seus olhos. Foi o sapatinho de cristal salto 15 que fez o príncipe bater de porta em porta a procura da dona. Homens e mulheres usam saltos desde há muito tempo. Reza a lenda que na Idade Média os sapatos com solado de madeira tinham a finalidade de afastar os pés da sujeira das ruas. Os açougueiros do antigo Egito usavam saltos para se protegerem do sangue dos animais. Até então, esse tipo de calçado não era visto como fetiche, mas sim como necessidade. Com o teatro grego e romano, o salto começou a indicar status social. Os atores calçavam sandálias de plataforma, e quanto mais alta, mais importante era o personagem. Lindo de se ver eram as cortesãs chinesas com seus tamancos de 30 cm de altura provocando nos homens os mais inconfessos desejos. Uma lei promulgada pelo parlamento inglês do século XV decretava: “Toda mulher que seduzir um homem para que ele se case com ela utilizando-se de sapatos de salto alto, será castigada com as penas de bruxaria”. Quem prefere calçados baixos que me perdoe, mas o imaginário social possui uma estreita relação de sedução com o salto alto. Haja vista a expressão “sobe no salto, amiga” quando uma mulher precisa mostrar atitude. Há milênios, o salto faz a cabeça e os pés de muitas mulheres e de homens também. Freud, conhecedor da alma humana, afirmou que as mulheres não imaginam o poder de sedução e controle que o salto provoca nos homens. Embora considerado para muitos como um desperdício burguês, esse artifício carrega o nosso estado de espírito e transforma o visual, valorizando até um jeans surrado. Considero-o uma peça indispensável, para não dizer a mais importante do guarda-roupa de toda mulher. Podemos até não usá-los todos os dias, mas sempre que quisermos marcar presença em algum acontecimento, lançamos mão do que se tornou o ícone do imaginário feminino, um bom salto alto.
Ângela Maria Lorenzoni Sauthier – Fevereiro/2016






















sábado, 9 de janeiro de 2016

DEGUSTANDO A VIDA

Marx afirma que a luta de classes é o que anima a humanidade. Freud acha que é o sexo. Para mim, perdoem-me a pretensão, o que nos impulsiona é o sonho. Não me refiro àquela fantasia que acontece durante o sono que a psicanálise define como cargas emocionais armazenadas no inconsciente. Falo do sonho como desejo, ânsia, aspiração, objetivo. Ele não precisa ser imenso, mas intenso como as enxurradas que surgem abruptas em céus cor de chumbo.  Sonhos são vontades que nos incitam, que nos fazem sair da cama pela manhã, que nos mostram o rumo a seguir. Na infância, eles se misturam à imaginação açucarada e prazerosa envoltos aos hormônios que estão sendo produzidos. De fácil acesso, surgem e somem sem deixar rastro. Quando não realizados, são substituídos por outros, sem problemas.  Um cãozinho de estimação, uma bicicleta nova, o celular da moda e, com o tempo, dependendo das posses, vão se sofisticando cada vez mais. Fase folgada essa, pois nada depende da gente. Temos que simplesmente desejar. Se ganharmos, estaremos no lucro E assim vamos borboleteando até a barulhenta juventude que surge derramando planos e experiências sôfregas.  Época de despertar paixões, convulsionar, mas também de traçar caminhos, investir no futuro. Nessa ocasião, juramos de punhos cerrados que seremos felizes para sempre com o parceiro que escolheremos, que nossos filhos serão lindos e bem educados, e a fama esmagadora virá ao nosso encontro. Lá na frente, oscilando entre severa e exuberante, surge a maturidade. Às vezes sorridente, às vezes desapontada. Deveria ser o tempo de fazer boas colheitas, de realização profissional. Mas ainda temos prazo para refazer aquilo que não saiu a contento, lavar as mágoas que teimam em permanecer em nosso coração, seguir lutando para sermos úteis e justos, e quem sabe, admirar nossas conquistas. E depois? O que vai nos restar? Podemos continuar sonhando na velhice? Um dia desses, questionei meu amigo e colega Jâneo sobre a necessidade de sonhar. Jâneo é um jovem professor de filosofia, estudante de artes cênicas e mestrando em educação. É inteligente, criativo, dinâmico e dono de uma criticidade oceânica. Perguntei-lhe o que nos move na velhice. As lembranças, prontamente ele falou. Diante daquela resposta assustadora, me senti paralisada. Revisitar o passado nos dá energia suficiente para viver o presente? Seria assim o último ciclo de nossas vidas? Viver de recordações? É o mesmo que esperar por nada e admitir que o tempo passou de vez. E essa coisa cheia de vida e alegria que pulsa dentro da gente sai de cena? Seria desolador. Sim, isso é morrer. Quero crer que a velhice é a fase em que armazenamos conhecimentos, experiências, amores bem e mal resolvidos, amizades verdadeiras e acima de tudo vontades. Vontade de fazer exatamente aquilo que por várias razões não pôde ser feito antes. Na metamorfose dos anos, temos que encontrar razões para continuar vivendo. Se o comportamento humano é modelado pela cultura, e a expectativa de vida do homem aumentou, quero ser desafiada sempre, mesmo na senilidade.  Desculpe, meu amigo Jâneo. Preciso violar a tua tese. É uma questão de vida ou morte.

Ângela Maria Lorenzoni Sauthier 
07/01/2016



terça-feira, 22 de dezembro de 2015

PRESENTES DE NATAL

Chegou o Natal. É hora de escolher presentes. Jurei que não vou mais embarcar nas loucuras de final de ano. Correr agoniada da manhã à noite nos dias 22, 23 e 24. Comprar presentes para os filhos, para o marido, para os afilhados, para o amigo secreto, para a faxineira, para a melhor amiga, para a vizinha de porta, para a manicure...  Providenciar o peru, a sobremesa, a farofa, o arroz à grega, o salpicão, as frutas... e quando faltar trinta minutos para servir a mesa, ir para o banho, passar um pente no cabelo e sentar no sofá quase dormindo de tão cansada. Não quero me sentir obrigada a ficar feliz e sorridente na hora da ceia. Quero ser absolvida por não ter tido paciência de colocar as luzes na sacada, nem montado um pinheiro imponente.  A maturidade está me deixando mais exigente com algumas coisas e mais comedida com outras. Decidi não fazer aqueles tradicionais pedidos ao Papai-Noel. Dane-se o Iphone 6s plus na cor ouro rosa com 128GB, as peças de cerâmica pintadas a mão de Istambul, a viagem a Bora Bora para nadar nas águas azul-turquesa. Quero presentes mais deleitosos, como ser menos consumista, por exemplo. Serenidade é outro bom presente. Serenidade suficiente para resolver meus problemas sem ter que achar culpados. É difícil viver num mundo em que a tragédia e o banal aparecem juntos, mas pessoas serenas entendem melhor essas discrepâncias. Quando eu era adolescente, nos momentos em que meu pai me repreendia por algum motivo, eu rebatia suas acusações até deixá-lo tonto. Então ele dizia que eu seria uma ótima advogada. Hoje quero ter equilíbrio para entender que não sou dona da verdade e aceitar a opinião alheia com ponderação.  Se tem algo que me aborrece é a minha teimosia. Desejo que as críticas destruidoras passem longe de mim para não sacolejarem minhas emoções. Aprender a me perdoar também quero. Acredito que seja a melhor maneira de arrancar as raízes da dor de dentro da gente. Se não for pedir demais, gostaria de ser mais humilde e nunca, mas nunca mesmo, deixar a vaidade se aproximar muito. A vaidade é o pecado preferido do diabo. Quero pensar menos. Pensar é coisa muito perigosa e às vezes nos obriga a tomar decisões que não queremos.  Também gostaria de viver uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. O que resta de mim é uma mulher barulhenta que não sabe se comportar, fala o que pensa e paga um alto preço por isso.  Falar o que se pensa nos abre algumas portas e fecha outras. Sou uma mulher com bom gosto, bom senso, que não gosta de dias nublados e ama desafios. Que aplaude algumas rebeldias, mas detesta conchavos de qualquer espécie. Eu já disse, estou ficando meio chata. No momento, procuro a simplicidades das coisas, a essência das pessoas e fujo de olhares que vigiam, punem e criticam.  A curiosidade? Ah, essa está sempre pulsando dentro de mim.

Ângela Sauthier
Dezembro/2015




domingo, 6 de dezembro de 2015

CARTA PARA MINHA AMIGA ALICINHA

Nos últimos dias, tenho pensado muito em ti, cara amiga! Embora os parentescos possam ser frequentemente descartados, te considero mais irmã do que amiga. Não dessas irmãs que disputam o melhor espaço ou que apenas usam o mesmo sobrenome. Irmãs de verdade, isso sim, carregadas de afeição. Sei que o que nos sustenta são as boas amizades, importante pois, cuidar bem delas. Muitos quilômetros nos distanciam, e, apesar disso, sempre estivemos bem próximas. Agora te sinto tão ausente, tão calada, tão soturna. Sei da carga de otimismo que sempre te acompanhou. Conheço tuas quedas, teus recomeços, tua vontade contagiosa de viver pacificamente, teu amor pujante pela família. Nossa sintonia faz eu pensar que nem tudo está bem contigo. Amiga, temos muito em comum: somos mulheres, esposas, somos mães... Ser mulher é uma barra, tu sabes. Como pertencemos ao grupo daquelas que abdicaram de um provedor para poder manter sua independência, trabalhamos em casa e fora dela, com a fúria de um temporal de inverno. Somos centralizadoras, barulhentas e pretensiosas. Só nós sabemos onde foi guardada a camisa branca do marido, a chave da lavanderia, o xampu que deveria estar na gaveta do banheiro. Só nós providenciamos outra faxineira quando Madalena nos deixa na mão na véspera do aniversário da filha. São prosaicas ocorrências do cotidiano que tiramos de letra. Sei que és uma mulher bem articulada e essas amenidades não te tirariam do centro. Mais um ano se passou e vivemos muitas coisas diferentes. Se algum infortúnio te tocou fundo a alma durante esse período, reage! Os dissabores contribuem para o nosso crescimento espiritual. Sem mágoas, sem frustrações, apenas evolução. O tempo, querida, trata uns melhor que os outros, mas, mesmo assim, nos torna mais profundas e contemplativas. Somos esposas e nossos companheiros são tão falíveis quanto nós. Sei que nem sempre estamos dispostas a suportar o rigor de suas críticas, no entanto, o cenário mórbido que se constrói com discussões vãs não beneficia ninguém. Somente formam feridas que demoram para cicatrizar. Temos que nos empenhar para evitar esses embates e, quando não conseguimos, devemos nos perdoar sem ter que pedir desculpas por sermos nós mesmas. Não esquece que as experiências nos tornam mais resistentes. Quanto aos filhos, minha amiga.... ah... os filhos! São cultivados como flores em estufas. Eles têm todos os motivos, todos os direitos, todas as necessidades. E nós, somente obrigações. Como todas as mães, apesar de imaculadas, carregamos a culpa pelas falhas. E não esqueça, eles nunca estão sozinhos. Fazem parte de uma sociedade degenerada e sonolenta que não nos poupa. Devemos ser para eles como a árvore que se curva gentilmente sobre as casas oferecendo sua sombra sem cobrar nada em troca. Não espere tanto deles. Eles são sempre uma surpresa para nós. Os ressentimentos precisam ser evitados para que outros males não se manifestem. É necessário nos encantarmos cada dia mais com a vida e termos na alma abundantes e generosos sentimentos, pois das dores do corpo, os remédios dão conta. E o resto, amiga, a gente inventa. Espero vê-la em breve. Manda notícia

domingo, 11 de outubro de 2015

HOMENAGEM AO MEU IRMÃO

Meu irmão foi o último filho de uma prole de cinco. Nosso pai já estava resignado com a ideia de ter somente mulheres em sua descendência. Ninguém levaria seu nome adiante. Nada poderia ser feito contra os desígnios de Deus. Acontece que desconhecíamos os planos do criador e de uma gravidez tardia nasceu o macho da família Lorenzoni. Era para ser chamado de José, nome do avô paterno. Não podíamos tirar esse direito do pai coruja, mas também não queríamos que nosso irmãozinho carregasse um nome tão antigo e sem graça. Depois de muitas negociações entramos num acordo: Joel Antônio. Joel por ser parecido com José, nome do avô. Pelo menos era mais atual. E Antônio em homenagem ao pai. Somente a ingenuidade do seu Antônio acreditaria numa história dessas. Ingenuidade ou alegria por ter nascido o tão sonhado herdeiro. Para o Joel deve ter sido um tanto complicado conviver com cinco mulheres. Todas mais velhas, palpiteiras, mandonas e se achando no direito de decidir caminhos dele. Nosso irmão resolveu esse problema fechando-se como uma ostra e elegendo o Jéqui, um vira latas que apareceu lá por casa, seu melhor amigo. Andavam os dois sempre juntos como Dom Quixote e seu fiel escudeiro. Não se pode negar que Joel sempre foi tratado como o legítimo nenê da família, mas nem por isso levou com ele traços de filho mimado. Ao contrário, em plena adolescência, aprendeu a se virar sem a presença da mãe. Enfrentou a solidão, o estresse do vestibular, a tristeza de não ter a mãe presente na sua formatura, seus primeiros trabalhos. Construiu uma família linda. É um pai presente. Está sendo um avô de causar inveja. Embora seja um profissional de destaque, nunca permite que as pessoas lhe olhem de baixo para cima. Joel tem o hábito de temperar as palavras para não magoar ninguém. Carrega sempre junto de si o modelo de homem simples, correto, verdadeiro e sensível, fruto de uma educação arraigada. Entusiasta nas questões da espiritualidade, sabe que qualidade de vida se constrói do lado de dentro da gente e não do lado de fora. Sinto muito orgulho dele. Feliz aniversário, Joel. Da Iaia. Ângela M. L. Sauthier. Outubro/2015

sábado, 19 de setembro de 2015

AMOR GUAPO


Não me julguem bobalhona a ponto de acreditar que vão conseguir destruir meu Rio Grande. Sempre fomos um povo valente. Nunca nos acovardamos. Parem de dizer que a Guerra dos Farrapos foi uma mentira, que não teve um ideal republicano. Se foi uma luta iniciada por estancieiros insatisfeitos com os altos impostos cobrados pelo governo imperial, se houve massacre, se os negros continuaram ainda sendo escravizados, se não houve vencedores, e sim um acordo de paz, eu até aceito. Mas nada disso invalida o esplendor de um povo que não aceitou quieto ser manobrado por uma minoria dominadora. Não apaga a virtude de uma gente que, historicamente, defendeu com sangue suas fronteiras contra as investidas castelhanas. A ideia de que a Revolução Farroupilha foi um mito criado pelos gaúchos devido a carência de identidade de seu povo é de interesse de quem? Essas pessoas ignoram que a nossa identidade está no nosso modo de falar, de vestir, de dançar? Que está no nosso canto triste, na reza para o negrinho do pastoreio, na nossa comida, no nosso chimarrão? Não sabem que está nas nossas sangas fundas, no abraço apertado, nas coxilhas, nas crenças, nas nossas histórias? Nossa identidade está na consciência de participação na delimitação do nosso estado. Nossa identidade está na nossa literatura, com o mito de Ana Terra e Rodrigo Cambará, com a figura do vaqueano Blau Nunes dos contos de Simões Lopes Neto. Nossa identidade está na nossa alma. No entanto, mais do que nunca, os governantes estão ultrajando o povo do pampa, humilhando nossa gente, achincalhando nosso estado como se não tivéssemos história, espírito guerreiro, e nem soubéssemos domar gado xucro. Sou suficientemente gaúcha para acreditar que, assim como da outra vez, sairemos dessa de peito estufado, servindo de modelo a toda Terra. Ângela Lorenzoni Sauthier/ Setembro- 2015

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

LOUCOS DE ATAR

Todos carregamos uma cota de ranço diário. Algumas pessoas são azedas eventualmente, outras, sempre. Contrariedades fazem parte da vida. Tenho uma amiga que não fala com ninguém antes do meio dia. Se falar, sua metralhadora giratória entra em ação. Melhor não puxar assunto. O pior da pessoa mal-humorada é sua instabilidade. Nunca sabemos como chegar nela, sua reação é sempre uma surpresa. Existem transtorno de humor, estabilizador de humor, mas não inventaram ainda um aparelho para medir o mau-humor de alguém. Esse instrumento, a meu ver, teria uma grande utilidade, ainda mais se viesse acompanhado por uma tabela que assinalasse o limite máximo de mau-humor permitido para que um filho de Deus pudesse sair de casa. Se ultrapassasse o limite, que ficasse olhando televisão, dormindo ou provocando o cachorro. Entendo que a vida aqui na Terra, definitivamente, não está para brincadeira e é bem normal termos contratempos de toda ordem. Porém, temos que selecionar nossos problemas, como diz o poeta, é preciso saber viver. Mas, convenhamos! Existem pessoas que beiram a paranoia. Os alienados mentais estão mais próximos da gente do que pensamos. Andam na mesma calçada, trabalham no mesmo emprego, convivem no mesmo ambiente e às vezes até dormem na nossa cama! Quando tudo parece estar na santa paz, a pessoa surta! E a gente fica em estado de choque, com cara de paisagem, sem saber o que fazer, o que pensar, tomando cuidado para não perder a compostura e descer do salto. O provérbio português – de gênio e louco, todos temos um pouco – absolve em parte alguns chiliques, mas, de qualquer forma, eu prefiro lidar com os loucos tratados. É mais seguro. A bela Cleópatra usou sua loucura de forma genial; lançou mão de uma armadilha poderosa e perturbadora no seu primeiro encontro com Júlio César. Chegou ao palácio nos ombros de seu criado Apolodoro enrolada num tapete. Diante do imperador, o siciliano desenrola o tapete e de dentro sai Cleópatra nua e bela com seus cabelos despenteados, com a pele morena do sol do Egito e oferece-se a César. Esse ato de loucura fez com que um dos homens mais poderosos do mundo beijasse seus pés. César ficou encantado e totalmente dominado. Não é por acaso que ela foi uma das maiores mulheres da história da humanidade, apesar de ter apenas um metro e sessenta de altura. Se é para ser louco, tem que ser pra valer. Nada de perpetuar traumas de infância, dramas familiares ou questões econômicas para justificar atitudes insanas. Que sem graça! Por qual motivo algumas pessoas teimam em transgredir regras de convivência sadia? Vale a pena? Beneficia alguém? Não tem nenhum glamour nisso. Ou use a loucura a seu favor, ou vá num psiquiatra, faça um tratamento e controle seus delírios. E nos outros dias acione seu azedume moderadamente. ÂNGELA LORENZONI SAUTHIER AGOSTO/2015

domingo, 23 de agosto de 2015

CHEGANDO AO FUNDO DO POÇO

Hoje tenho um angustiante compromisso. Listar minhas despesas do mês e escolher as contas que precisam ser pagas com maior urgência. As que restarem, só Deus sabe o que vai acontecer. Não sou caloteira e nunca assumi compromisso que estivesse acima das minhas possibilidades. Sou uma mulher honesta e responsável. Meio parecida com meu pai que só comprava alguma coisa se tivesse todo o dinheiro no bolso. Hoje me encontro numa condição lancinante. Depois de algum tempo lutando pela melhoria da educação pública, pela conquista de um piso salarial já amparado em lei, pela valorização geral do magistério, vou receber no final do mês quinhentos reais pelo meu trabalho realizado como professora da Rede Estadual de Educação do Rio Grande do Sul. Na avaliação do governo, essa quantia é suficiente para uma professora que atende quatro turmas do Ensino Fundamental e três do Ensino Médio. Coisa pouca... Mais especificamente, ensino Língua Portuguesa para adolescentes e Literatura Brasileira para jovens e adultos. Isso quer dizer que tenho a responsabilidade de fazer com que alunos de 12 ou 13 anos desenvolvam o hábito da leitura, transitem com aptidão no universo da língua culta e aprendam a se comunicar utilizando os diversos tipos de linguagens disponíveis. Tenho a importante incumbência de mostrar a eles que as variedades linguísticas existentes são aceitas e legítimas não cabendo nenhum tipo de preconceito. Preciso também ensiná-los a amar a língua pátria e dela sentirem orgulho sem precisar lançar mão de vocábulos estrangeiros. No Ensino Médio me cabe estimular pessoas que, por uma razão ou outra, deixaram os bancos escolares e agora retornam esperançosos. Devo mostrar a eles que a arte da palavra nos leva a um mundo de encantamentos e que a literatura é um belo caminho a seguir. Usando minha saudável cota de extravagância viajo com eles em todas as formas de arte e possibilito o conhecimento de outras culturas. Tento mostrar-lhes que para ter um lugar ao sol é necessário passar pela escola. Para os governantes isso que faço não tem valor, ou melhor, vale no máximo quinhentos reais. Em meio a essa profusão de ideias e pensamentos, lidando com realidades não raras vezes em frangalhos, conflitando com famílias sem sustentação que frequentemente nos culpam pelas mazelas emocionais que carregam, nós, professores, vamos driblando nossos próprios dramas e lavrando um campo novo para poder acomodar as situações que surgem. É duro e perturbador ter que aparar celeumas que divorciados de seus contextos caem em nossas mãos como borboletas feridas. E sempre temos que ter uma palavra de conforto e de motivação mesmo que tudo o que mais falte seja motivo para a ação. Nem vou mencionar o tempo que dediquei a minha formação, os cursos, as especializações, os concursos... Para o governo, tudo isso é ainda muito pouco. Essa é minha profissão e a ela me entrego com entusiasmo e sensatez. Não obstante, não somos valorizados como profissionais. O governo trata o magistério com descaso. Querem que sejamos missionários da educação ou até mesmo que as aulas funcionem como catarse. Não bastasse o nosso minúsculo salário, temos que conviver com pagamentos parcelados e agora a aberração de receber no final do mês a quantia de quinhentos reais. Isso é indigno. É ultrajante. É obsceno. Sou uma profissional e como tal tenho o direito de receber meu salário integral sem ter que fazer movimentos reivindicatórios para me apropriar do que já é meu de direito. Não aprendi os arroubos da mágica, mas estou percebendo que o governo quer que desempenhemos mais essa função. Jogar na loteria é uma outra alternativa. Tamanha falta de respeito é desconcertante. Estamos no limite entre o sadio e o patológico. Ângela M. L. Sauthier AGOSTO/2015

domingo, 28 de junho de 2015

MACHISMO DESVELADO

As mulheres continuam sendo vítimas jacentes de um machismo que vem atravancando o universo feminino de forma sórdida. O fato que descreverei a seguir confirma o que digo. Não foi na Grécia antiga, nem no sertão nordestino do final do século XVIII que aconteceu. Foi aqui, na cidade universitária, na minha Santa Maria da Boca do Monte dos dias de hoje. Eis que um grupo de amigas, mulheres independentes, instruídas, iluminadas e bem casadas reúnem-se para confraternizar. Motivo? Festejar a vida. Os encontros são rotineiros e desta vez acontece em uma noite fria de bater os dentes, no salão de festas do prédio onde mora uma das componentes do grupo. As amigas conversam, dançam e divertem-se. Decerto que festa é pra se alegrar e quando mulheres de bem com a vida se encontram, acontece um escarcéu. Parece que de uma costela de Adão saiu o primeiro alto-falante. Há quem diga que as pertencentes ao sexo frágil têm necessidade de falar aproximadamente 20.000 palavras por dia. Imaginem trinta mulheres concentradas em 80 metros quadrados. E a festa ia se estendendo açucarada até às 23 horas e trinta minutos quando, de repente, um homem raivoso, de cara amassada e de pijama listrado empurra a porta e entra no salão sem pedir licença e sem olhar para ninguém. Vai até o aparelho de som e de uma forma selvagem e ameaçadora, arranca o fio da tomada. Como um soldado espartano, retira-se dizendo: “chega de barulho”. Cobertas de indignação ficamos paralisadas. Durante uma fração de segundos, resgatando fiapos de otimismo que ainda tinham sobrado, pensamos tratar-se de alguma brincadeira. A alegria durou pouco, não era brincadeira. Era o síndico do prédio que considerou o horário inapropriado para festas e achou por bem desligar o som. Lembrei então, daquela caricatura do homem das cavernas arrastando uma mulher pelos cabelos. Senti-me castigada. Sim, como uma criança que fez uma arte e foi repreendida. Meu estômago ficou embrulhado. Senti vontade de chamá-lo de covarde, cachorro, sem-vergonha e outras coisas mais que as mulheres dizem para os homens. Porém, me calei. Ele não foi merecedor sequer dos meus insultos. Invadir um ambiente privado, só de mulheres (se os maridos estivessem na festa, ele não teria feito isso) e, revestido com a máscara de síndico, desligar a nossa música, não me pareceu uma atitude que caiba dentro dos moldes de civilidade. Poderia ter usado a mais eficiente de todas as ferramentas humanas para resolver o problema, a linguagem, providencial para a função que ocupa. Preferiu recorrer às armas. Sua hostilidade evidente sugere um machismo escrachado e uma estupidez rançosa, sem espaço nos dias de hoje. Ou seria ele um ginofóbico? Não precisava dessa demonstração de virilidade às avessas, afinal somos todas pacíficas, generosas e serenas. É triste constatar que ainda existam tiranos dessa espécie. A propósito, machismo é uma forma de violência. E minha Santa Maria segue cintilante e fagueira festejando a vida. Ângela M. Lorenzoni Sauthier Junho/2015

sábado, 9 de maio de 2015

MATERNIDADE

Este ano quero um dia das mães diferente. Sem botas de presente, sem cartão, sem rosas no supermercado, sem abraços prolongados e frases prontas. Sem almoço em família com sobremesa hipercalórica. Sou mãe de três arrojados, inteligentes e charmosos filhos. Toda mãe tem filhos admiráveis, eu acho. Amamentei, levei-os no pediatra, na pracinha. Depois na escola, no judô, na natação, no ballet, no basquete, no teclado.... ufa! Fui buscá-los de madrugada nas baladas, nos shows, na volta de excursões, na casa de amigos. Acompanhei-os no vestibular, esperei por eles, torci por eles, vibrei e chorei com eles. Levei-os na faculdade, na biblioteca, no xerox. Função nossa de cada dia. Não fui a mãe ideal. Fui a mãe possível na complexa relação que se estabelece entre pais e filhos. E dentro das minhas possibilidades, fiz o máximo que podia. Fui me debruçando sobre suas inquietudes, me despindo do comodismo, arregaçando as mangas e a alma, me transformando em várias, em múltiplas. Estive permanentemente exposta à transgressão da educação informal, mas nunca me rendi. Nas épocas de turbulências, fui incansavelmente cúmplice. Dentro de cada mãe existe uma força medonha que nasce exatamente quando descobrimos que estamos grávidas. O tamanho dela é proporcional à necessidade de cada filho. Essa energia é capaz de fazer a gente esquecer a fome, o sono, a dor e aprender a conviver com o coração apertado de medo, de preocupação e de angústia. Fui mais autoritária do que permissiva. Não tenho a personalidade macia. Centralizadora sim, não nego. É minha forma de amar. Sofro no paraíso como todas as mães. Carrego comigo aquele sentimento de culpa que todas nós trazemos no peito. Na condição de mães, lançamos uma sementinha na terra, regamos, adubamos e esperamos que ela cresça. A boa e bem cuidada semente um dia germina e dá bons frutos. E os meu três arrojados, inteligentes e charmosos filhos desabrocharam para a vida de uma forma estonteante. Já me deram muitos motivos para chorar de alegria, de emoção e de orgulho. O que mais deseja uma mãe a não ser que seus filhos tenham coragem, amor, compaixão e sabedoria para aliviar de uma maneira ou de outra a dor de seus semelhantes? Não precisam ter feeling para o sucesso. A felicidade chega de outras formas. Vem um tempo em que eles começam a clamar por liberdade. Vão ficando independentes de nós e nós vamos ficando órfãs deles. Por isso, nesse domingo, vou dispensar os presentes, o almoço especial e os mimos. Quero apenas agradecer pela minha farta colheita. Quero me emocionar com suas presenças costumeiras. Quero poder abraçá-los e pedir perdão pelos meus desacertos. E dizer-lhes que trago junto de mim uma carga de saudade porque coração de mãe nunca se aposenta. MAIO/2015

sábado, 7 de março de 2015

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES

Sempre que escrevo sobre o Dia Internacional da Mulher, sinto um certo desconforto. É uma sensação de estar tentando engrandecer algo que já é grande. É como estivesse sorrateiramente querendo provar ao mundo que somos tão notáveis quanto os homens e que nossas diferenças são apenas biológicas. No entanto, permanecemos vulneráveis em relação à sociedade e a nossos pares. Todo o dia tem quem puxe nosso tapete e nos coloque num lugar que não é o nosso. Se estivéssemos em pé de igualdade com os homens, não teríamos um dia especial só para nós. Por isso, este ano decidi não falar nada sobre o assunto. Afinal, até as pedras sabem que as mulheres vêm subindo degraus na conquista de espaços e continuam discriminadas em muitas questões. Desnecessário dizer que um número significativo delas são provedoras de suas famílias e depois de um dia de trabalho intenso tem que tomar conta da casa enquanto o marido assiste ao jogo na tv. É o nosso trabalho invisível, não remunerado que é esquecido por não gerar riquezas materiais. Dizer que sempre somos responsabilizadas pela educação de nossos filhos e carregamos sozinhas a eterna culpa pelas suas angústias, medos e frustrações. Dizer que as mulheres continuam sendo assediadas dentro de um contexto de violência marcado pela desigualdade de gênero. Que os lugares públicos travestidos de neutros são espaços prioritariamente masculinos, no qual, em determinados horários, não podemos transitar sob pena de sermos estupradas e ainda acusadas de provocativas. Dizer que temos que ter cuidado com as roupas que vestimos, se não quisermos ouvir piadinhas inoportunas. Selecionar nossas falas e planos para não sermos chamadas de vadias. Existem rótulos que nos colocam dentro ou fora da sociedade. Dizer que acumulamos um capital cultural razoável investindo em estudos, muitas horas sem dormir e renúncias gigantescas para depois disputar um lugar no mercado de trabalho e sermos, não raras vezes, preteridas por pertencermos ao sexo feminino. As empresas preferem os homens, pois estes não precisam levar o filho no médico, não correm o risco de ter que mudar de cidade quando a esposa é transferida, nem ficam grávidos. Por que ganhamos até 30% menos que nossos companheiros para exercer a mesma função? Talvez porque tenhamos aquele sangramento mensal. Quem sabe é porque a variação hormonal provoque em nós uma mudança de humor. E quando isso acontece somos chamadas de mal amadas, que falta homem em nossa vida e outras coisas mais. Dizer também que somos assassinadas pelos nossos companheiros (15 mulheres por dia) quando estes sentem que perderam o controle sobre nós. Depois se justificam maculando nossa imagem. E ainda nos chamam de sexo frágil!!!!! Não. Melhor não. Prefiro não escrever nada sobre o Dia Internacional de Mulher. Ângela Sauthier Março/2015