segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

DIALOGANDO COM O TERAPEUTA




Lhe digo, não sou eu que atraio minhas tristezas. Fujo delas como o diabo da cruz. No entanto o desalento me absorveu. Sinto como se estivesse carregando o fardo do mundo. Sempre que batia asas, olhava para trás na espera de que alguém viesse a meu encalço. Agora me perco na escuridão dos dias sem sentir medo. Meu coração não oscila mais segundo as estações do ano. Está ficando cheio de nada. Bate devagar. Logo eu que sempre apostei nas emoções. Aquelas extraordinárias, porque as moderadas são cheias de tédio. Logo eu que sempre tive um formidável apetite de viver.  Não me reconheço mais. Dou um salto mortal na memória e percebo que na minha meninice não existiam dias iguais. Luminosos, nublados ou chuvosos vinham sempre abarrotados de utopias. Na adolescência ainda se espera muito da vida. Lampejos de sonhos nos perseguem. Eles moram dentro da gente. O senhor que conhece os labirintos do coração sabe que é preciso ter cuidado com o que se busca, pois nada é para sempre. Hoje o mundo parece estar desvestido de alegrias. Essa vida louca que me faz tombar aos pedaços quando percebo que fui expulsa da minha própria condição para dar lugar ao momento presente que me castiga com rigidez. Olho para os lados e só vejo gente triste. Deve ser por culpa do tempo, esse intruso que escorre como óleo espesso e faz crescer a nossa rotina.
O doutor sabe que a vida é uma sucessão de perdas e eu não quero viver recolhida no vazio da minha existência, no silêncio protocolar dos dias opacos, nem faminta de afetos. Preciso acreditar que não perdi a razão para seguir com a minha história. O senhor tem sido meu melhor conselheiro nas horas em que minha alma sapateia desolada. Por isso faça eu aceitar a condição de não ter nascido para moldar almas.
  Olho para a janela e espero que, como uma doença, a noite passe logo. Vou sair do escuro sem fazer barulho, na ponta dos pés. Vou encontrar o dia. Vou encontrar o sol. Eu preciso de sol para viver. O que eu queria mesmo, doutor, era uma transfusão de vida.

Ângela M. L. Sauthier
Janeiro/2017



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

MEU PRÍNCIPE ESTÁ DE ANIVERSÁRIO


Conheço os limites das palavras, por isso sempre foi difícil para mim traduzir as emoções.  Não sei medir sentimentos. Menos ainda avaliar a intensidade dos afetos de uma mãe por um filho. Somente quem os tem sabe que esse amor desvairado constrói ligações definitivas. Hoje meu filho Camilo está de aniversário, por isso é um dia importante. O dia é especial porque Camilo é um ser humano extraordinário. Ele nasceu de parto normal às 20 horas e 15 minutos com um quilo e oitocentos gramas. Tinha apenas 45 centímetros. Pouco maior que um gatinho, Camilo chegou ao mundo cauteloso e frágil sem fazer estardalhaço. Somente o pediatra percebeu que aquele ser minúsculo e apressado faria uma revolução em nossas vidas. Pessoas intensas chegam rápido.
A princípio pensei que a vida tivesse me dado uma rasteira. Mas foi por um curto período. Logo rasguei o manual de instruções e partimos do zero. Vivendo em uma sociedade que trata o especial como doente, lutei para abrigá-lo de ventos ásperos. Enfrentei bichos e homens, mas nunca deixei que as aves de mau agouro pousassem em seu ombro.  Fomos nos conhecendo um pouco a cada dia. Ensinei seus primeiros passos, a balbuciar as primeiras sílabas, a sentir o doce e o amargo, a distinguir a luz da penumbra. E ele, com abertura enorme para o afeto e com escassas palavras me ensinou que a humildade é uma bênção, que a tolerância nos faz evoluir, que o amor ilumina a alma e que a felicidade está nas coisas pequenas e simples. Camilo vai à luta sem medo. Conquista seus espaços com humildade. Enfrenta os desafios sem arrogância.
Seu carisma conquista a todos sem restrição, e eu sinto um grande orgulho dele. Agradeço a Deus todos os dias por tê-lo a meu lado. Parabéns, meu príncipe!


sábado, 22 de outubro de 2016

MEMÓRIAS

Olho a casa que me viu crescer e volto no tempo de uma forma sôfrega como se vivesse os últimos momentos na terra. Apesar de estar travestida de sobrado mal acabado, a casa, com suas paredes alaranjadas e janelas brancas, surge voluptuosa como fêmea no cio. Mesmo sem querer eu vou lembrar de seus aposentos estreitos e simplórios que, vez por outra, me encaram e me reconhecem. Sou uma ilustre visitante que motivada pela saudade ou na tentativa de buscar o que ficou perdido no passado, retorna cheia de esperança. Despojada do presente, quero sentir a alquimia que ficou impregnada nos corredores confusos e cobertos de lembranças boas. A parreira que foi plantada pelo nono Bepe, em cuja sombra meu pai descansava sentado em uma espreguiçadeira de lona listrada sempre que retornava do trabalho. O quintal de chão batido com algumas árvores de copas altas que, nos outonos acabrunhados, espalhavam folhas amarelas pelo chão. Durante as ventanias de setembro, seus galhos roçavam as telhas da casa e rugiam como leões furiosos. Mais uma vez abandono-me aos pensamentos e vejo o pé de laranja natal, miúdo, sorridente e de cheiros vários. Retomo os momentos em que, nas tardes vadias, apanhava seus frutos com cuidados de amante extremosa e saboreava o caldo adocicado. Na beirada da cerca, um imponente pessegueiro com frutos comumente bichados que eventualmente fazia meu deleite ao mostrar-me um pêssego maduro. Volto para a porta da cozinha minúscula e ouço o gemido de um martelo batendo nas madeiras verdes. Mais uma vez meu avô entra em cena, com sua sabedoria de imigrante italiano e pobre, na construção do galpão que iria abrigar dezenas de galinhas poedeiras. Surge então a imagem de minhas irmãs e eu, no final do dia, recolhendo ovos com cestas de vime. Minha memória teima em trazer de volta o dia em que minha mãe vendeu duas de suas poedeiras para que nós pudéssemos ir na matinê de domingo. As mães são generosas no seu amor. Volto para o cômodo da frente e dali visualizo a cerca coberta de rosinhas de maio que floresciam em novembro. Plantadas a esmo e sem cuidado algum, pariam cachopas cor-de-rosa que se amontoavam singelas e perfumadas provocando um espetáculo quase divino. Difícil era apanhá-las sem espetar os dedos nos seus espinhos endurecidos e afiados. Girando ainda a manivela da memória vejo Dona Geni, não a que foi apedrejada, mas a que plantava sempre- vivas em um jardim atulhado de borboletas. A mulher das flores, ela era chamada pela vizinhança.  Como esse tempo foi intenso. As palavras tornam-se xucras para traduzi-lo.  As emoções que ali nasceram me espreitam e me seduzem todos os dias. Impossível esquecê-las. Saí daquele lugar para alçar voos aventureiros, mas lá minhas plumas deixei. Com o pensamento meio anarquizado saio daquele estado de contemplação com o som de uma voz feminina perguntando se eu procurava por alguém.

 Ângela Sauthier-  Outubro/2016





domingo, 3 de julho de 2016

O FUTEBOL NOSSO DE CADA DIA


O domingo tinha todos os requisitos para ser perfeito. O dia de domingo é gostoso por natureza, e este, em especial, apareceu escandalosamente ensolarado.  O frio de renguear cusco deu lugar a um veranico que antes era chamado de verão de maio. Clima de férias no Nordeste.    Um pouco antes do almoço, teríamos o Grenal. Quem é gaúcho sabe que o Rio Grande é dividido entre gremistas e colorados. Tem os que não gostam de jogo, mas torcer por um time de fora, somente os gaúchos desgarrados, os que não têm calor na alma. Em dia de Grenal, o estado inteirinho fica inquieto, tenso e esperançoso. Uma disputa gigantesca aflora nos nossos corações. A vitória num jogo desses tem gosto de sorvete de morando, de pudim de chocolate, de doce de leite.
Hoje, o meu Internacional fez eu acordar antes do almoço (nos domingos, acorda-se depois do almoço), eufórica, vibrante e faceira. O Beira-Rio estava esplêndido. Uma massa humana cor de sangue vibrava nas arquibancadas. Gente de todas as cores, todas as idades, todos os sexos torcia, gritava, agitava bandeiras.
Meu time perdeu. Contingências do futebol. Eu chorei. A maior torcida gaúcha chorou. Não é possível explicar o que sentimos. Têm fatos que a palavra não alcança, mas dói feito uma brasa. As grandes dores são mudas. Apesar dessa derrota, continuo acreditando com cada molécula do meu corpo que ainda vamos nos empanturrar de vitórias.
De repente, o domingo ficou cinzento. Mais parecia uma segunda- feira chuvosa.

Ângela Maria Lorenzoni Sauthier- 03/07/2016



domingo, 3 de abril de 2016

SIMPLES ASSIM

Por força do ofício, eu transito por entre adolescentes e jovens diariamente.   Compartilhamos manhãs, tardes ou noites inteiras num entrosamento às vezes bonito, outras vezes nem tanto, mas sempre melhor do que era há algum tempo em que não tínhamos com eles intimidade alguma. Havia um afastamento respeitoso e formal que, de alguma maneira, os deixava subjugados a nós e a espontaneidade de suas atitudes ficava mascarada em função da necessidade de corresponderem ao que esperávamos deles. Hoje, apesar de tudo o que se comenta sobre a ausência de limites ou sobre a relutância no cumprimento de regras estabelecidas, eu considero a convivência com os jovens bem mais emocionante e positiva. Os meninos e meninas mudaram muito. Gosto mais deles agora. São espontâneos, sinceros, menos preconceituosos, salvo algum perdido que ainda carrega consigo um ranço do conservadorismo. Os corredores das escolas estão repletos de loiros encaracolados, morenas de cabelo liso- Cleópatra, camisetas coloridas, meninos com rabo de cavalo amarrado com fita rosa-choque, meninas com cabelos raspados. São verdadeiros. Tanto que sem nenhum pudor desfilam com sua cara-metade de mãos dadas, mesmo que pertençam ao mesmo sexo. Admiro essa ousadia, essa coragem de quebrar paradigmas. São bem resolvidos, bem articulados e ao mesmo tempo, vulneráveis como o voo de uma borboleta. São pragmáticos e não hesitam em demonstrar seus sentimentos através de uma carícia no cabelo, na mão, no rosto. Saboreio essa mentirosa rebeldia que os acompanha e respeito essas ligações que o adestramento social considera transgressoras. Sexos opostos continuam se atraindo, porém cada vez mais observo meninas ficando com outras meninas numa relação doce e afetuosa sem parecer que estão carregando o peso do mundo sobre seus ombros.  Cada vez mais vejo homens dividindo uma mesa de bar e também trocando olhares de quem quer apanhar a fruta madura da árvore. Atualmente a linha que separa os anseios de homens e de mulheres está ficando invisível. Nossos jovens não aceitam mais ter que reprimir aspectos de suas personalidades para agradar a uma sociedade excludente por natureza. E a autenticidade deles me comove e faz com que eu passe a refletir em relação a alguns conceitos que eu tinha como verdadeiros. Assim, como a florada dos ipês anunciam a primavera, essa realidade está anunciando que muito em breve as pessoas poderão vir a escolher seus parceiros pelo cheiro, pela troca de palavras doces, pelo olhar arrebatador, pelo acolhimento de suas almas. A distinção entre macho e fêmea cairá por terra. Os mais conservadores, aqueles que têm sempre razão, enfim, o soldado do passo certo tem que aprender a amenizar esse olhar de estrangeiro que lhe persegue. Sem julgamentos. E, com a contribuição de Eclesiastes 3 “Todos vão para um lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão” reconheço que é simples assim, pois é coisa de Deus. Um dia desses, durante uma aula de literatura, mostrei a eles um exemplo de texto pequeno no tamanho, mas forte no sentido e   que reforça o contexto atual: Amem. Amém.

Ângela Maria Lorenzoni Sauthier- Abril/2016




quinta-feira, 10 de março de 2016

EDUCAR É PRECISO

Estava subindo a Venâncio Aires numa dessas tardes quentes de fevereiro, quando percebi que o tempo mudou de repente. O céu antes escandalosamente ensolarado deu lugar a nuvens negras que se movimentavam com rapidez.  Um grande temporal se armava na minha Santa Maria. As pessoas ficam agitadas quando isso acontece.  Na minha frente, seguiam apressadas mãe e filha de mãos dadas. A menina que deveria ter uns 5 ou 6 anos, chorava porque queria um sorvete. Não sei exatamente qual o combinado entre elas antes, mas certamente o temporal que se insinuava alterou os planos da mãe. A menina não aceitava e queria porque queria o tal do sorvete. A mãe então argumentou que a chuva estava próxima e elas teriam que correr até a parada para não perderem o ônibus. De nada adiantou a explicação. O choro da filha, a princípio manso, foi aumentando até se transformar numa súplica birrenta e medonha. Segui observando a cena para ver o desfecho. A menina, com toda a tirania peculiar de criança sem limites continuava testando a mãe, que, como todas, carregava aquele pesado sentimento de culpa por ver um filho contrariado. Junta-se a isso a vergonha que estava sentindo por ser personagem de um espetáculo que já chamava a atenção das pessoas que por ali passavam. Foi então que a mãe iniciou o processo mais rápido de perda de autoridade materna: negociou com a menina:
- De noite eu faço batata frita pra ti, prometeu a mãe.
- E massinha também, determinou a filha.
- Massinha também, concordou a mãe.
A pequena ditadora enxugou as lágrima, ergueu o rostinho brejeiro e ambas subiram no ônibus. Acompanhei com o olhar abstraído o coletivo que dobrou na Avenida Rio Branco. Fiquei pensando cá com meus botões: que oportunidade essa mãe perdeu de ensinar limites a uma criança. Educar é trabalhoso, exige paciência, firmeza, equilíbrio. E as mães têm dificuldade de dizer não, pois o não é sempre uma frustração de um desejo. No entanto, são justamente essas pequenas frustrações que vão formando o caráter de uma criança. Na cena que eu assisti, aquela mãe achou mais confortável ser conivente com a manipulação da filha e colocar um ponto final no problema. Os padrões comportamentais familiares sofrem uma grande desorganização.  Está se formando uma geração de príncipes e princesas com mais direitos e liberdades do que obrigações e responsabilidades. A vida aqui fora nos obriga a respeitar limites e as crianças precisam estar preparadas para isso. Melhor seria que elas aprendessem no ambiente familiar e que os pais não delegassem à escola e a seus professores esses ensinamentos. Segui meu caminho torcendo para que a chuva esperasse eu chegar em casa.

Ângela Lorenzoni Sauthier

Março/2016

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O PODER DO SALTO

Sou deslumbrada por saltos altos desde pequena. Não é à toa. Nasci em uma noite de carnaval, quando beldades com suas fantasias faustosas desfilavam na avenida. E toda aquela pomposidade lá instalada clamava por saltos generosos. Não consigo imaginar uma rainha de bateria usando rasteirinha. Seria muito aborrecido. Também não acredito que Cinderela fisgou o seu príncipe encantado pela cor de seus olhos. Foi o sapatinho de cristal salto 15 que fez o príncipe bater de porta em porta a procura da dona. Homens e mulheres usam saltos desde há muito tempo. Reza a lenda que na Idade Média os sapatos com solado de madeira tinham a finalidade de afastar os pés da sujeira das ruas. Os açougueiros do antigo Egito usavam saltos para se protegerem do sangue dos animais. Até então, esse tipo de calçado não era visto como fetiche, mas sim como necessidade. Com o teatro grego e romano, o salto começou a indicar status social. Os atores calçavam sandálias de plataforma, e quanto mais alta, mais importante era o personagem. Lindo de se ver eram as cortesãs chinesas com seus tamancos de 30 cm de altura provocando nos homens os mais inconfessos desejos. Uma lei promulgada pelo parlamento inglês do século XV decretava: “Toda mulher que seduzir um homem para que ele se case com ela utilizando-se de sapatos de salto alto, será castigada com as penas de bruxaria”. Quem prefere calçados baixos que me perdoe, mas o imaginário social possui uma estreita relação de sedução com o salto alto. Haja vista a expressão “sobe no salto, amiga” quando uma mulher precisa mostrar atitude. Há milênios, o salto faz a cabeça e os pés de muitas mulheres e de homens também. Freud, conhecedor da alma humana, afirmou que as mulheres não imaginam o poder de sedução e controle que o salto provoca nos homens. Embora considerado para muitos como um desperdício burguês, esse artifício carrega o nosso estado de espírito e transforma o visual, valorizando até um jeans surrado. Considero-o uma peça indispensável, para não dizer a mais importante do guarda-roupa de toda mulher. Podemos até não usá-los todos os dias, mas sempre que quisermos marcar presença em algum acontecimento, lançamos mão do que se tornou o ícone do imaginário feminino, um bom salto alto.
Ângela Maria Lorenzoni Sauthier – Fevereiro/2016