O termo infância, etimologicamente significa ausência de
fala. O infante troca sílabas, confunde significados, tem um vocabulário pobre.
Nessa fase, a linguagem é escassa, mas a imaginação e a criatividade são
abundantes. Não é por acaso que esse é o tempo que mais deixa saudade. Eu fui
uma criança abençoada. Sinto o cheiro da infância, sinto o gosto da infância,
sinto a inquietude da infância. Guardo lembranças memoráveis dessa época.
Revivo momentos que me marcaram com tanta sagacidade que permanecem intactos na
minha mente e na minha alma. E para lá eu retorno nas noites de insônia, nos
momentos de muita ansiedade ou quando penso que tudo está perdido, sempre na
tentativa de contrapor épocas tão distintas.
O poeta dizia que a vida é a arte do encontro embora haja tantos
desencontros. A infância é o local dos meus encontros. Como era lindo o pomar
da minha casa e como eram grandes os dois pés de pera plantados ao lado do muro!
Do alto dos meus quatro anos eu imaginava que suas folhas alcançavam as nuvens. Nas noites de vento norte, seus galhos
carregados de frutas batiam no telhado da casa fazendo um barulho
ameaçador. Assustada e imaginando histórias fantasiosas, eu escondia a cabeça
embaixo do travesseiro e rezava para o meu anjo da guarda. Minha mãe dizia que
ele protegia até as meninas arteiras. Na manhã seguinte, às vezes já com chuva
– depois de três dias de vento norte sempre chove- o quintal amanhecia como um
tapete verde. Minha tarefa era juntar as peras caídas, colocá-las em um cesto
de vime para depois descascá-las. Minha mãe fazia doce com calda que era
guardado em potes de vidro bem fechados para serem servidos às visitas nos
domingos. Algumas peras eram assadas em um forno a lenha e servidas ainda
quentes na hora do lanche. Ainda sinto o gosto das peras assadas. Quando as
folhas das árvores caíam e seus galhos ficavam nus, eu aguardava a nova florada
e acompanhava outra vez a transformação das minúsculas flores em frutinhas, e
eram tantas que faziam os galhos se curvarem. A felicidade vinha de coisas tão
simples. Como explicar a singeleza das
folhas verdes bailando no ar? Essas pequenas lembranças me causam melancolia alguma
vezes. Sinto saudade de um tempo que não mais voltará e que ainda desperta em
mim sensações inexplicáveis.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
domingo, 30 de junho de 2013
A TRISTEZA PEDE PASSAGEM
“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”....
Este verso da música Roda Viva de Chico Buarque de Holanda parece ser a
fotografia da alma em decomposição. Como
alguém consegue traduzir em palavras tamanha tristeza? É um momento de extrema magia. Desde os tempos de Aristóteles,
os melancólicos eram conhecidos como pessoas geniais, pois escreviam, pintavam
e compunham admiravelmente. E justamente
nos momentos de maior aflição realizavam suas melhores produções.
Somos frágeis, imensamente frágeis. Fugimos
das frustrações porque não sabemos como
lidar com elas. As pequenas são mais fáceis de serem contornadas. Uns vão
extravasar suas aflições na música, na dança, na escrita, nos medicamentos, no
álcool. Seria tão simples se entendêssemos que nem todos os nossos desejos
podem ser satisfeitos e que as frustrações são parte inerente da vida adulta.
No entanto, perdemos muito tempo procurando culpados para os nossos fracassos.
A excessiva sensibilidade e a incapacidade de suportar
momentos de tristeza é uma porta aberta para o sofrimento. Viramos as costas
para a dor, principalmente a dor na alma. No entanto sentir tristeza é inevitável. Todos
nós em algum momento da vida passaremos pelo estado de abatimento, melancolia,
erros, fracassos, dor e angústia.
Desde que nascemos começamos a sustentar nossas
inquietações, nossos desejos inconfessos, algum sofrimento silencioso, outros
nem tanto. Com o passar do tempo passaremos a tratar uma decepção como se fosse
um sequestro relâmpago que nos assusta inicialmente, mas depois cai no
esquecimento. O tempo é responsável por
isso.
Sentir-se como quem partiu ou morreu é o nada, é
o vazio, é a ausência de tudo. É a falta de ânimo, de vigor, de perspectiva, de
planos, de sonhos. Como tudo, a tristeza também é passageira. Alguns dias,
acordamos com o sol batendo em nossa janela. Outros, nem sentimos vontade de
sair da cama. Mesmo assim, maquiamos nosso desalento e seguimos em frente. C'est la vie.
domingo, 9 de junho de 2013
SUA MAJESTADE O CABELO
Ela
sempre se orgulhou de seus cabelos pretos e virgens de tintura. Surpreendentemente
decidiu ficar loira e para isso se trancafiou num salão de beleza por sete
horas ressurgindo como uma nova mulher. Estranhei a princípio. Afinal, foi de
um radicalismo generoso. Devia ter suas razões.
A cumplicidade da mulher com seu cabelo é
histórica. Sabemos que ele está associado a nossa capacidade de atração e
sedução. É como se fosse uma carta escondida na manga que podemos tirar toda
vez que quisermos mudar. Podemos ser várias,
uma a cada mês. Somos capazes de gastar muito tempo e dinheiro com nosso cabelo
sem reclamar; cortes, tinturas, hidratações, progressivas, definitivas, enfim.
Durante a ocupação
nazista na França, as francesas que demonstravam simpatia pelos alemães tinham
como castigo suas cabeças raspadas. Era a forma mais eficaz de humilhá-las. O cabelo é tão fundamental que passou a individualizar a
mulher. Identificamos a loira de cabelos longos, a ruiva de franja, a morena da
trança, a do cabelo curtinho, a do cabelo multicolorido e tantas outras caracterizações
que têm sempre o cabelo como protagonista. Eles são eternamente cortados,
alisados, soltos, remexidos, presos e pintados de todos os matizes. Quando uma
mulher diz que vai mudar de vida, a primeira mudança é no cabelo. O poder de
transformação é latejante, toca a alma
feminina. Ao mexer no cabelo, a mulher
está enviando sinais para os que estão em volta. Muitas vezes são sinais
diabólicos, provocadores, arrogantes. E
os homens reconhecem tais sinais, mas nem sempre os interpretam corretamente.
Naquele dia, a morena num ato de extrema
rebeldia ficou despudoradamente loira. Tirou a carta da manga, mudou sua vida,
sua alma. Tinha suas razões.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
ESPERANDO O NAMORADO
Todo mundo sabe
direitinho qual é o seu sonho. Uns querem conhecer Londres, outros esperam um
dia ter sua independência financeira, e há ainda os que estão à procura de um
grande amor. Até aí nada de novo. O que me deixou surpresa foi uma redação
produzida por uma aluna do Ensino Médio na semana que antecedia o natal, cujo tema
era o presente que eles, os alunos, gostariam de ganhar de natal. A menina, na exuberância dos seus 18 anos,
escreveu que gostaria de ganhar do Papai Noel um namorado. Confesso que até me
assustei com o pedido. Por que uma garota como aquela precisaria pedir um
namorado como presente de natal? Ter um namorado seria algo tão valioso assim? Passei
então a refletir sobre a importância do namorado na vida das mulheres.
É inacreditável que apesar de todas as lutas
ferrenhas que o sexo frágil tem encarado e vencido, ter um namorado continua
sendo um fator determinante para uma mulher ser vista como bem sucedida. É
sabido que na adolescência a menina trilha os caminhos do seu grupo e o faz por
uma questão de identificação. Se sua amiga está namorando, ela vai namorar
também. Depois dos 30 anos a cobrança se
intensifica. A mulher pode ter um bom emprego, ser uma excelente profissional,
mas não ter namorado passa a falsa ideia de não ser uma mulher completa, falta
sua cara metade. O namorado lhe confere o título de ser aceita e desejada por
alguém.
Algumas mais
exigentes na escolha do parceiro, não raras vezes ouvem comentários do tipo
“você é tão bonita e não tem namorado!”. Essa referência transmite uma mensagem
implícita que deve haver algo de errado com ela, e que ser bela é condição
necessária para encontrar o homem certo. Numa sociedade de aparências em que a estética
é divinizada, ser invisível não traz nenhuma vantagem, embora se saiba que nem
sempre o mais atraente é o melhor ou o melhor é o mais atraente. Apesar disso, fica
evidente que um namorado acaba colocando a mulher em uma vitrine.
Quando se aproxima o dia dos namorados, muitas
delas sentem-se excluídas por estarem sós, pela falta de um jantar a dois, por
não receberem presentes, por não ter a quem dar presentes. A sociedade as
coloca na condição de anônimas solitárias e como se não bastasse, a mídia acaba
reforçando esse sentimento de solidão promovendo o dia dos namorados de tal
forma que a data se tornou a mais comercial do mundo consumista.
Espero que
minha aluna já tenha recebido seu almejado presente, assim, seu lugarzinho na
vitrine está garantido. E se ele chegou fazendo seu coração bater
aceleradamente, melhor ainda.
terça-feira, 21 de maio de 2013
A DOR DO OUTRO PODE SER A NOSSA
Enquanto fingia comer um doce de morangos, ela ocultava as
lágrimas segurando o rosto com a mão esquerda. Vez por outra olhava em volta
para se certificar de que ninguém a observava. Impossível não vê-la. Era uma
mulher de traços marcantes, bem vestida, usava sapatos de salto alto e tinha
uma flor pequena tatuada no ombro direito. Ocupava uma mesa central de uma
confeitaria no centro da cidade. Estava só, irremediavelmente só, com sua dor
estampada no rosto. Disfarçava o pranto incontido procurando algo na bolsa de
couro marrom. Homens e mulheres passavam por ela, ocupavam cadeiras próximas a
sua e não percebiam seu sofrimento. Ninguém mais tem tempo para olhar quem está
ao seu lado. Estamos sempre com pressa, atrasados e ocupadíssimos. Uma parada
para um café é o tempo máximo que dispomos numa tarde de segunda feira.
Fiquei a
observá-la de longe. Não a conhecia. É engraçado como encontramos algumas
pessoas repetidas vezes e, sobre elas nada sabemos. No entanto, ela era para mim
uma ilustre desconhecida. Talvez nem morasse
na cidade e aqui estivesse somente de passagem. Pensei em abordá-la, oferecer
ajuda, perguntar se queria que eu a ouvisse, mas decidi não me arriscar. Ela poderia entender essa atitude como uma
invasão da sua intimidade. Às vezes usava um lenço para limpar a maquiagem borrada pelas lágrimas. Discretamente
ela olhava em volta para se certificar de que ninguém tinha prestado atenção
nela. Passei a imaginar diferentes causas para aquela tristeza. Um problema de
saúde chegado de surpresa, uma decepção com a melhor amiga, o final de um
relacionamento? Poderia também não ser
nada tão sério. Muitas vezes somos
surpreendidos por momentos de extrema fragilidade que nos derrubam e nos fazem
chorar em público. Sabemos o que vale e o que não vale a pena nessa vida, por
isso nossa sensibilidade, às vezes, deselegantemente extrapola seus limites. Então,
a bela mulher se dirigiu até o caixa, pagou e se retirou sem olhar para trás.
Nunca mais a vi. Em mim ficou uma sensação de vazio, de omissão, de
desumanidade. E daí se ela tivesse me dito para deixá-la sozinha, que era um
problema particular dela e que não estaria disposta a dividir comigo? Tudo bem,
nada que eu não pudesse entender. E se minha ajuda fosse bem-vinda? E se ela
precisasse apenas ser ouvida? Odiei o
meu egoísmo, a minha falta de solidariedade e a minha indiferença pela dor da
desconhecida.
É preciso
prestar mais atenção nas pessoas. É preciso fugir da tirania da pressa. O
automatismo que caracteriza nossa época está nos deixando muito insensíveis. A
cumplicidade entre as pessoas é a melhor forma de demonstrar afeto. Quero
aprender a valorizar mais o ser humano e apostar menos nas coisas. Torço para
que a vida daquela mulher tenha se tornado mais doce e que ela tenha
sobrevivido àquele momento doloroso.
domingo, 12 de maio de 2013
O MAIOR DE TODOS OS AMORES
Um artigo escrito
por um empresário e publicado no Diário de Santa Maria neste final de semana me
emocionou bastante. Tentei lê-lo em voz alta para minha filha, mas não consegui
porque as lágrimas me impediram de ver as palavras. Uma pedagoga de Santa
Catarina adotou uma criança com Síndrome de Down, portadora de uma cardiopatia
congênita e lesão neuronal grave. A mãe adotiva ficou com a guarda provisória
durante 11 meses sendo que a menina veio a falecer com 16 meses sem que o processo
de adoção tivesse sido concluído. Essa mãe, com sua dor jorrando com toda
intensidade, pediu ao juiz que lhe concedesse o direito de registrar essa
criança, pois queria amá-la e lembrá-la mesmo após a sua morte. O Juiz, tomado
talvez por uma grande comoção, formalizou o primeiro caso de adoção “post
mortem” no Brasil. E a sentença que ele proferiu “Reconheça-se então este amor
da adotante, dando-lhe o alento que lhe resta, a saudade de uma filha que era,
sim, sua e uma história que deve ser lembrada como um verdadeiro exemplo de
adoção e amor incondicional, nem que seja nesta sentença.” contraria o
entendimento que muitos de nós leigos temos de que os juízes são pessoas frias
e que lhes compete apenas aplicar a lei.
Penso que o meu choro tenha acontecido porque li
o artigo na véspera do dia das mães e todas nós ficamos mais sensíveis nessa
data. Ou talvez porque eu também seja mãe de um filho especial e saiba o quanto
eles modificam nossas vidas. A verdade é que ao tomar conhecimento do fato eu
percebi que a humanidade, apesar de estar numa constante corrida pelo ter, pelo
parecer, pelo construir, ainda tem um coração que pulsa forte. Existem anjos espalhados pelo mundo. Anjos
como essa mãe adotiva que abraçou essa criança e dedicou a ela um carinho
supremo, apesar de todas as limitações que a filha trazia consigo. O pedido ao
magistrado se configurou em um amor ressurgido da dor em toda sua plenitude.
Existem anjos como esse juiz, que usando de uma percepção extremamente aguçada,
entendeu toda a angústia que essa mãe trazia na alma e tentou abrandá-la da
forma que podia. Sim, senhor juiz, a filha era dela e Vossa Excelência foi
muito feliz ao formalizar isso. E essa
história não vai ser apenas lembrada nesta sentença, mas vai ficar na memória
de todos que dela tomarem conhecimento. Minha admiração e respeito a essa mãe. Sinto-me insignificante frente a pessoas como
ela.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
EM TORNO DE UM CORAÇÃO
Ela sabia que a chegada daquele homem em sua casa naquela noite de silêncio estrelado não era uma coisa banal. Era uma mulher experiente com as coisas do coração. Já tivera dois casamentos e algumas paixões. Umas sem sentido, outras enlouquecedoras. Agora, ali em frente ao homem de terno azul teve receio de sucumbir. Ela sabe que os sentimentos não são eternos, mas estava órfã de carinhos. E ele ali, na sua frente, com aquele olhar arrebatador fazia salivar seus sentidos. Não poderia ser assim. Ele deveria chegar devagarinho, atento a todos os detalhes. Uma pessoa não pode invadir uma vida de maneira desatenta. Tem que ter cuidado, delicadeza, cautela. Passar da soleira da porta é algo mais grave. Exige precaução, cumplicidade, admiração. Conhecer sua intimidade é ocupar outros espaços que nem sempre estão vazios completamente. Mas ela, inadvertidamente foi permitindo que ele fosse abrindo gavetas e janelas. Pouco depois, eles já estavam no jardim conversando como velhos conhecidos. E como ela havia pressentido, esse encontro não seria em vão. As mulheres sabem das coisas, reconhecem um olhar perturbador, uma palavra que toca a alma e mexe com os sentidos. Tarde demais. Não tem como retroceder. E se ela olhasse em volta perceberia o vento balançando os galhos das árvores numa cumplicidade latejante.
Assinar:
Postagens (Atom)





